Cientistas criaram na Antártida uma espécie de arquivo natural dedicado à preservação de núcleos de gelo retirados de geleiras ao redor do planeta. O local foi instalado próximo à Estação Concordia, no Planalto Antártico Oriental, e funcionará como um repositório permanente para amostras que registram a história climática da Terra.
A iniciativa é coordenada pela Ice Memory Foundation e faz parte de um esforço internacional para proteger esses registros naturais antes que o aquecimento global provoque o desaparecimento de muitas geleiras.
Esses cilindros de gelo, conhecidos como núcleos glaciais, contêm pequenas bolhas de ar aprisionadas ao longo de centenas ou milhares de anos. Dentro delas estão preservadas informações valiosas sobre a composição da atmosfera em diferentes períodos da história do planeta.
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Um “congelador natural”
O arquivo foi escavado a cerca de cinco metros abaixo da superfície da neve, onde a temperatura permanece extremamente baixa durante todo o ano. No interior da estrutura, o gelo é mantido a aproximadamente –52 °C, o que permite conservar as amostras sem a necessidade de equipamentos de refrigeração.
Segundo os pesquisadores, escolher um ambiente naturalmente congelado reduz o risco de perda de dados causada por falhas técnicas, crises energéticas ou até instabilidades políticas que possam comprometer instalações científicas convencionais.
Registros do clima da Terra
Os núcleos de gelo funcionam como arquivos ambientais extremamente detalhados. Cada camada acumulada ao longo do tempo guarda vestígios de gases de efeito estufa, partículas de erupções vulcânicas, poluentes industriais e até sinais de eventos climáticos extremos.
Essas informações ajudam cientistas a reconstruir o clima do passado e a melhorar modelos que projetam as mudanças climáticas futuras.
No entanto, o avanço do aquecimento global ameaça essas fontes de dados. Muitas geleiras de montanha estão recuando rapidamente e algumas podem desaparecer ainda neste século, levando consigo registros únicos da história climática do planeta.
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Primeiras amostras armazenadas
A nova instalação recebeu recentemente suas primeiras amostras. Entre elas estão núcleos de gelo coletados no Mont Blanc, em 2016, e no Grand Combin, em 2025.
As amostras foram transportadas até o continente antártico a bordo do navio quebra-gelo de pesquisa Laura Bassi, mantendo temperatura constante de –20 °C durante toda a travessia.
A viagem durou mais de cinquenta dias e percorreu o Mediterrâneo, o Atlântico, o Pacífico e o Oceano Antártico até chegar ao Mar de Ross, porta de entrada para o interior do continente gelado.
Um arquivo para o futuro
O projeto pretende reunir, ao longo dos próximos anos, amostras de geleiras de diferentes regiões do mundo. A ideia é garantir que esses registros climáticos permaneçam preservados para futuras gerações de cientistas.
Com tecnologias mais avançadas no futuro, os pesquisadores esperam extrair ainda mais informações dessas cápsulas naturais de gelo, ampliando o conhecimento sobre a evolução do clima da Terra.
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