A expansão do desmatamento na Amazônia já produz efeitos mensuráveis sobre o clima regional. Um estudo apoiado pela FAPESP indica que áreas com grande perda de cobertura florestal registram aumento médio de até 3 °C na temperatura durante a estação seca, além de uma redução significativa no volume de chuvas.
Segundo a pesquisa, regiões que preservam mais de 80% da vegetação mantêm maior estabilidade térmica. Em contrapartida, locais onde a cobertura florestal caiu para menos de 60% passam a apresentar características climáticas semelhantes às zonas de transição entre floresta úmida e savana, com clima mais quente e seco.
Os resultados foram publicados no fim de novembro na revista científica Communications Earth & Environment e se baseiam na análise integrada de dados de temperatura, precipitação e evapotranspiração.
Menos chuva, menos umidade e mais calor
Entre os principais fatores associados às mudanças climáticas locais está a redução da evapotranspiração — processo pelo qual a floresta libera vapor d’água para a atmosfera. Com menos árvores, esse mecanismo enfraquece, diminuindo a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas.
O levantamento mostra que, nas áreas mais degradadas, o volume de precipitação durante a estação seca é cerca de 25% menor. A taxa de evapotranspiração cai 12%, e o número de dias chuvosos diminui, em média, 11 dias ao longo do período seco.
Essas alterações criam um ciclo de retroalimentação: menos floresta resulta em clima mais árido, que, por sua vez, torna o ambiente ainda mais vulnerável à degradação.
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Risco crescente para biodiversidade e economia
O cenário mais quente e seco aumenta a suscetibilidade da Amazônia a incêndios florestais e compromete a sobrevivência de espécies sensíveis à variação climática. Com o avanço da degradação, áreas antes dominadas por floresta densa tendem a ser ocupadas por gramíneas exóticas e vegetação oportunista, reduzindo a biodiversidade.
Para Luiz Aragão, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, os dados reforçam a necessidade de compreender o papel estratégico da floresta. “As florestas exercem uma função essencial na regulação do clima, com impactos diretos sobre o bem-estar da população e sobre atividades econômicas”, destaca.
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Preservação como estratégia produtiva
Os autores do estudo defendem que manter a cobertura florestal acima de 80%, como previsto no Código Florestal brasileiro, é fundamental para evitar a intensificação dessas mudanças climáticas regionais.
O pesquisador Marcus Silveira, autor principal do artigo, ressalta que a floresta em pé não é obstáculo ao desenvolvimento, mas um fator de segurança para a produção agrícola. Segundo ele, a preservação ambiental fortalece a resiliência do agronegócio, ao garantir estabilidade climática e reduzir riscos associados a secas e eventos extremos.
A conclusão dos cientistas é clara: conter o desmatamento e investir na restauração da Amazônia não é apenas uma agenda ambiental, mas uma medida estratégica para proteger a biodiversidade, a economia regional e o equilíbrio climático do país.
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