As recentes declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicam que a ofensiva política e diplomática contra a Venezuela tem como pano de fundo a reaproximação das grandes petroleiras norte-americanas com o país sul-americano. A avaliação é do economista Adriano Pires, especialista em energia e infraestrutura, que analisou o discurso feito por Trump no sábado (3), em Mar-a-Lago, na Flórida.
Na ocasião, o republicano deixou claro que pretende recolocar empresas dos Estados Unidos no centro da exploração petrolífera venezuelana, após décadas de afastamento provocado pela nacionalização do setor. “Nossas gigantescas companhias petrolíferas, as maiores do mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura petrolífera, que está em péssimo estado, e começar a gerar lucro para o país”, afirmou Trump. Em tom de ameaça, completou: “E estamos prontos para lançar um segundo ataque, muito maior, se necessário.”
Segundo Pires, a presença das empresas norte-americanas na Venezuela começou a se reduzir ainda no início dos anos 1990, após o fim do governo de Carlos Andrés Pérez, e foi praticamente eliminada com a nacionalização promovida por Hugo Chávez, em 1999. Atualmente, apenas a Chevron mantém operações no país, sustentadas por autorizações especiais.
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Apesar do cenário adverso, o potencial venezuelano permanece elevado. O país produz hoje entre 800 mil e 1 milhão de barris de petróleo por dia, mas poderia alcançar facilmente cerca de 4 milhões de barris diários em condições normais de investimento e gestão. Além disso, concentra aproximadamente 17% das reservas globais conhecidas — as maiores do mundo, ainda que de petróleo pesado e de menor qualidade. No cenário atual, a China é o principal destino da produção venezuelana.
Para Adriano Pires, uma eventual reentrada em larga escala das petroleiras dos EUA teria força para reorganizar o tabuleiro energético internacional. No curto prazo, porém, ele não vê espaço para uma disparada nos preços. “No curto prazo, acredito que o preço do petróleo pode até diminuir no mercado internacional, como resultado da ação dos EUA na Venezuela”, afirma. Segundo o economista, o mercado já convive com excesso de oferta, o que ajuda a explicar a queda de quase 20% registrada no ano passado — o maior recuo anual desde 2020 — tanto no Brent quanto no WTI.
A leitura é diferente para Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis. Na avaliação dele, a tendência imediata é de alta, impulsionada pela instabilidade geopolítica. Ardenghy considera que o mercado internacional deve reagir com volatilidade já nos próximos pregões, diante das incertezas sobre possíveis retaliações e sobre o comportamento de aliados estratégicos da Venezuela dentro da Opep, como Rússia e Irã.
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Outro fator de risco citado pelo dirigente do IBP é o impacto logístico de uma eventual escalada do conflito. Um bloqueio naval ou aéreo na região do Caribe poderia elevar significativamente os custos de fretes e seguros marítimos. A área é estratégica tanto para as exportações brasileiras quanto para a importação de derivados, como diesel e gasolina, provenientes do Golfo do México. Qualquer alteração nessas rotas, alerta Ardenghy, tende a pressionar preços e custos operacionais no comércio internacional.
Entre expectativas de maior oferta e temores de ruptura geopolítica, o futuro do petróleo permanece incerto — e cada novo movimento de Washington ou Caracas pode pesar diretamente no bolso do consumidor global.
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