As luzes no céu encantam muita gente nas viradas de ano e grandes celebrações, mas, para cães e gatos, os fogos de artifício costumam significar medo extremo. O problema não está apenas no susto momentâneo: o som intenso pode desencadear crises de estresse, provocar acidentes e, em casos extremos, levar à morte dos animais.
A explicação começa pela audição. Cães e gatos percebem frequências mais altas e sons a distâncias muito maiores do que os humanos. Nos cães, a sensibilidade auditiva chega a ser quatro vezes superior à nossa. Sem compreender a origem do estrondo, o animal interpreta o ruído como uma ameaça iminente, reagindo com fuga ou pânico.
“Os fogos de artifício e gritos podem promover respostas comportamentais características de estresse, como latidos estridentes, agressividade, busca por esconderijo, fazer as necessidades fisiológicas fora do lugar apropriado e até mesmo se machucar ao tentar escapar daquele som”, explica a veterinária Mariana Raposo.
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Medo é regra, não exceção
Uma pesquisa realizada em 2022 pelo Petlove mostrou que 85% dos tutores relatam medo de fogos em seus pets. O levantamento, feito com 1,2 mil responsáveis por animais, apontou que quase três em cada quatro bichos procuram esconderijo ao ouvir os estampidos, enquanto mais da metade apresenta tremores.
A situação não melhora tanto com os chamados fogos “silenciosos”. Embora produzam explosões cerca de 50% menos barulhentas, eles continuam emitindo ruídos capazes de assustar os animais. “Eles continuam sendo assustadores especialmente para a audição canina. A pólvora de projeção dos fogos de artifício, que lança os artefatos coloridos para o céu, é sempre barulhenta”, ressalta Raposo.
Riscos além do susto
O medo intenso não se limita ao desconforto. O estresse elevado pode causar ferimentos durante tentativas de fuga, crises convulsivas, perda auditiva e até problemas cardíacos. “Os animais podem evoluir para quadros de parada cardíaca se não encontrarem uma forma de amenizar a situação de estresse”, afirma o veterinário João Paulo Lacerda, professor do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê).
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Como proteger cães e gatos
Especialistas recomendam medidas simples, mas eficazes, para reduzir o sofrimento dos pets:
- manter o animal em um ambiente fechado, seguro e familiar;
- fechar portas e janelas durante as queimas;
- usar música suave ou sons contínuos para abafar o barulho externo;
- oferecer companhia e atenção, evitando deixá-lo sozinho;
- consultar um veterinário sobre calmantes naturais ou medicamentos, se necessário;
- evitar juntar muitos cães no mesmo espaço, o que pode gerar brigas em situações de estresse.
A médica-veterinária Mariana Cappellanes Flocke, consultora técnica sênior de Pet Health da Elanco Saúde Animal, destaca ainda a importância da identificação. “Recomendamos que os microchips estejam atualizados com informações de contato e que os portões e janelas estejam sempre fechados durante as festas para não ter problemas”, orienta.
Debate que vai além dos animais
A discussão sobre fogos ruidosos também envolve saúde pública. Pessoas com fonofobia podem ter crises de ansiedade diante de ruídos repentinos, enquanto indivíduos no espectro autista frequentemente sofrem com desorientação, dores de cabeça e irritabilidade.
Por isso, várias cidades e estados brasileiros já adotaram restrições ao uso de fogos com estampido. Em âmbito nacional, um projeto aprovado pelo Senado em 2024 propõe proibir fogos com ruído acima de 70 decibéis — quando muitos artefatos tradicionais ultrapassam facilmente os 120. A proposta ainda aguarda análise na Câmara dos Deputados.
Enquanto o debate avança, veterinários reforçam: proteger cães e gatos durante as festas é uma responsabilidade direta dos tutores — e pode fazer a diferença entre um susto passageiro e um risco grave à vida do animal.
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