O ciclista britânico Paul Spencer quer transformar uma pergunta improvável em plano de viagem: se a ideia é “pedalar ao redor do mundo”, por que aceitar que metade do trajeto seja feita de avião? A resposta dele vem em forma de engenharia e teimosia. A partir de 2027, com largada prevista no Colorado (EUA), Spencer pretende cruzar continentes de bicicleta e cortar oceanos em um trimarã movido a pedal — o Pedal Beast — para tentar estabelecer o recorde de circunavegação mais rápida feita exclusivamente por propulsão humana.
O projeto tem duas metas declaradas: completar o giro global em cerca de três anos e usar a visibilidade da expedição para arrecadar fundos e ampliar a conscientização sobre o lúpus, por meio da Lupus Foundation.
A referência a ser batida é o recorde reconhecido pelo Guinness para a circunavegação por força humana, de 5 anos, 11 dias, 12 horas e 22 minutos, marca atribuída ao turco Erden Eruç.
Um barco feito para pedalar no mar
Para encarar os trechos marítimos, Spencer adaptou um antigo barco a remo oceânico que ganhou nova vida com a troca do sistema de propulsão. Antes chamado Tasman Rower, o casco de fibra de carbono de 11,6 metros foi projetado em 2012 pela neozelandesa LOMOcean Marine Ltd e construído pela Pachoud Yachts, também na Nova Zelândia.
A “conversão” para pedal, segundo o designer Craig Loomes, melhora o aproveitamento de energia em comparação à remada, justamente por eliminar o ciclo de recuperação que consome esforço sem gerar avanço. “A propulsão a pedal, em comparação com a remada convencional, é significativamente mais eficiente no geral”, afirma Loomes. “Isso se deve ao pedalar ser um ciclo contínuo. O ciclo de remada é recíproco, com grande parte da energia do remador sendo desperdiçada no curso de recuperação, sem mencionar a energia necessária para guiar os remos em condições de mar aberto.”
O Pedal Beast foi preparado para uma jornada longa: além do sistema de propulsão, o barco recebeu melhorias para estabilidade e navegação, com recursos como leme, comunicação por satélite e painéis solares — adaptações pensadas para aumentar autonomia e segurança no mar aberto.
Pedalar sem “atalho” virou regra do próprio desafio
Spencer diz que chegou a considerar um recorde mais tradicional de volta ao mundo de bicicleta, mas desistiu ao perceber que as regras permitiam atravessar oceanos de avião. “Uma vez, considerei o recorde do Guinness de ‘Volta ao Mundo de Bicicleta’, mas as regras permitem voar sobre os oceanos. Isso me pareceu errado”, conta. “Você não pode dizer que pedalou ao redor do mundo se voou metade dele. Então, criei minha própria solução: se não posso passar de bicicleta pelos oceanos, vou pedalar de outra forma.”
A estratégia logística mistura obstinação e planejamento: nos deslocamentos terrestres, ele seguirá em uma bicicleta convencional; nas travessias oceânicas, irá no trimarã. Em parte do percurso, o barco pode ser transportado entre portos para permitir a continuidade do roteiro sem romper o princípio da propulsão humana no trecho efetivamente percorrido.
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De uma aposta a uma volta ao mundo
A disposição para desafios acompanha Spencer há anos. Ele começou a ganhar atenção em 2009, após aceitar uma aposta para pedalar de Land’s End a John O’ Groats, atravessando as Ilhas Britânicas em menos de uma semana — e completar o trajeto em quatro dias. Desde então, acumulou travessias e recordes em viagens por diferentes continentes, até chegar ao plano que agora tenta unir esporte, tecnologia e causa social.
Para Spencer, o ritmo do pedal também é parte do sentido do projeto. “Pedalar me permite ver o mundo de perto”, reflete. “Pessoas, momentos, pequenos detalhes que você nunca notaria em alta velocidade.”
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