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quarta-feira, setembro 16, 2026

Pesquisa brasileira propõe nova forma de produzir soro contra veneno de cobras

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Um grupo de pesquisadores brasileiros desenvolveu uma nova estratégia para a produção de soros antiofídicos que pode representar um avanço significativo no tratamento de pessoas picadas por serpentes. A técnica, baseada no uso de alta pressão hidrostática para inativar o veneno, mostrou-se capaz de aumentar a eficácia do soro e, ao mesmo tempo, reduzir danos aos animais utilizados no processo.

Os acidentes ofídicos seguem como um grave problema de saúde pública em diversas regiões do mundo. Estimativas indicam que entre 1,8 milhão e 2,7 milhões de pessoas são envenenadas por serpentes todos os anos, resultando em até 138 mil mortes e centenas de milhares de sobreviventes com sequelas permanentes. Mesmo diante desses números, o tema ainda recebe atenção limitada de governos e da comunidade científica internacional.

No Brasil, onde a diversidade de serpentes é elevada e muitas populações vivem longe de serviços médicos, o impacto é especialmente relevante. O país registra dezenas de milhares de casos anuais, sendo os acidentes causados por serpentes do gênero Bothrops — como jararacas e urutus — os mais frequentes. Dor, inchaço, sangramentos, necrose e insuficiência renal estão entre as complicações possíveis.

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Atualmente, o soro antiofídico é o único tratamento reconhecido como eficaz contra o envenenamento por picada de cobra. Embora seja distribuído gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), desafios logísticos, dificuldades de armazenamento e limitações na produção ainda comprometem o acesso rápido ao tratamento, sobretudo em áreas remotas.

Além disso, a fabricação tradicional do soro depende da imunização de animais de grande porte, principalmente cavalos, com veneno ativo. Esse processo envolve riscos elevados, já que a toxicidade do veneno pode provocar lesões graves ou até a morte dos animais, reduzindo sua vida útil e encarecendo a produção.

Buscando alternativas, pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biologia Estrutural e Bioimagem (INCT/CNPq), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em parceria com o Instituto Vital Brazil, testaram o uso da alta pressão hidrostática como forma de inativar o veneno sem comprometer sua capacidade de estimular o sistema imunológico.

A técnica consiste em submeter o veneno a pressões extremamente elevadas, capazes de alterar sua estrutura molecular e reduzir drasticamente sua toxicidade. No estudo, publicado na revista científica Toxins, o método foi aplicado ao veneno da Bothrops jararacussu. Cavalos imunizados com o veneno pressurizado não apresentaram danos clínicos, ao contrário do que costuma ocorrer com o veneno nativo.

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Os resultados indicaram que o soro produzido a partir do veneno tratado apresentou níveis mais altos de anticorpos e foi capaz de neutralizar não apenas o veneno da B. jararacussu, mas também toxinas de outras espécies e até de diferentes gêneros de serpentes. Isso sugere um potencial de ação mais amplo e eficiente do antiveneno.

A alta pressão hidrostática já vinha sendo estudada em outras áreas da biomedicina, especialmente na produção de vacinas, com resultados promissores na inativação de vírus como o da febre amarela e o da influenza. No entanto, sua aplicação em toxinas de animais peçonhentos ainda era pouco explorada.

Para os pesquisadores, a nova abordagem pode contribuir para tornar a produção de soros mais segura, econômica e eficaz, além de reduzir o sofrimento dos animais envolvidos. A expectativa é que o método estimule novos estudos e ajude a enfrentar o histórico de negligência em torno dos acidentes ofídicos.

Ao ampliar as possibilidades de produção de antivenenos de maior qualidade e menor custo, a estratégia desenvolvida no Brasil pode ter impacto direto na redução de mortes e sequelas causadas por picadas de cobra, especialmente em regiões mais vulneráveis do planeta.

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