Uma medida do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reacendeu o debate internacional sobre os limites da ciência e os riscos associados a experimentos com patógenos. Em maio deste ano, o republicano assinou uma ordem executiva que visa restringir os chamados estudos de “ganho de função”, prática comum em laboratórios que altera geneticamente vírus para entender seu comportamento e antecipar possíveis mutações naturais.
O Instituto Nacional de Saúde (NIH), principal agência de pesquisa biomédica dos EUA, já iniciou o cancelamento de dezenas de projetos nessa linha, mesmo entre aqueles que haviam sido considerados seguros por especialistas da própria instituição. A decisão preocupa pesquisadores em todo o mundo, que alertam para os impactos dessa suspensão em áreas como saúde pública, agricultura e biotecnologia.
Os estudos de ganho de função não se restringem a vírus. A técnica é usada há décadas para desenvolver medicamentos, terapias celulares e culturas agrícolas mais resistentes. Um exemplo prático é a criação de imunoterapias com células CAR-T, que ajudam o sistema imunológico a combater o câncer. O mesmo princípio foi fundamental para o avanço da penicilina, ainda nos anos 1940, e para a produção em larga escala de vacinas.
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No campo da virologia, as experiências com ganho de função permitiram identificar como vírus como o H5N1, causador da gripe aviária, podem se tornar capazes de infectar mamíferos. Foi graças a esses experimentos, realizados há mais de uma década, que pesquisadores hoje conseguem monitorar mutações críticas do vírus e antecipar riscos de surtos — como os que já vêm sendo observados em aves e gado desde 2020.
Críticos da decisão de Trump afirmam que ela se apoia em interpretações equivocadas sobre o que de fato são esses estudos. “Ganho de função” passou a ser associado de forma pejorativa a ideias de manipulação perigosa ou irresponsável, alimentando teorias conspiratórias. Para os cientistas, no entanto, esse tipo de abordagem é uma ferramenta essencial — e já amplamente regulamentada.
Atualmente, projetos que envolvem patógenos potencialmente pandêmicos precisam passar por múltiplas camadas de aprovação institucional e governamental. As pesquisas ocorrem em ambientes altamente controlados, com uso rigoroso de equipamentos de segurança, tratamento de resíduos e controle de ar para evitar qualquer tipo de vazamento.
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Pesquisadores destacam que os vírus não precisam de laboratórios para ganhar novas funções. Na natureza, mutações ocorrem a cada replicação viral. A maioria é inofensiva ou até prejudicial ao próprio vírus, mas, eventualmente, uma alteração pode aumentar sua capacidade de infectar seres humanos. Foi assim com o SARS-CoV-2, que causou a pandemia de Covid-19.
Experimentos de laboratório permitem justamente antecipar essas mutações e desenvolver estratégias de contenção antes que elas se espalhem. Para muitos cientistas, restringir essas pesquisas significa fechar os olhos para um processo evolutivo que já está em curso, todos os dias, fora dos laboratórios.
As restrições também podem prejudicar outras frentes científicas. Técnicas de ganho de função já foram usadas para criar variedades de arroz resistentes à seca, milho mais nutritivo e plantas que ajudam no combate à fome em regiões vulneráveis. Na medicina, a base de muitas vacinas, inclusive as contra Covid-19 e gripe, depende diretamente desse tipo de abordagem.
O temor da comunidade científica é que uma proibição generalizada reduza o investimento em ciência de ponta e afaste os Estados Unidos da liderança em áreas estratégicas de pesquisa. Para especialistas, o caminho mais seguro seria aprimorar os mecanismos de supervisão e transparência, e não barrar integralmente uma técnica que tem sido vital para avanços nas últimas décadas.
O NIH ainda não detalhou quantos projetos serão afetados. A expectativa é de que as próximas semanas tragam novos embates entre governo e comunidade científica — e reacendam discussões sobre o papel da ciência no enfrentamento das ameaças globais do presente e do futuro.
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