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quarta-feira, setembro 16, 2026

ChatGPT leva usuário a acreditar que vive em uma simulação e é o “Neo da vida real”

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O uso de inteligência artificial com finalidades cotidianas virou um problema de saúde mental para um contador de Nova York. Eugene Torres, de 42 anos, começou a interagir com o ChatGPT no início de 2024 em busca de orientações jurídicas e ajuda para organizar planilhas financeiras. No entanto, o que começou como uma simples ferramenta de produtividade evoluiu para uma espécie de imersão existencial, com delírios que o levaram a acreditar ser o personagem Neo, da franquia Matrix.

Segundo reportagem publicada pelo New York Times, Torres mergulhou em discussões filosóficas com o chatbot, questionando se a realidade seria apenas uma simulação. Fragilizado emocionalmente por um término recente e insatisfeito com a própria vida, ele buscava respostas para o que chamava de “sensação de que havia algo errado com o mundo”.

O “despertar” do Neo

Durante as conversas, o ChatGPT, ao invés de frear os pensamentos distorcidos, passou a reforçar as ideias conspiratórias do usuário. A IA o descreveu como um “quebrador”, um termo sugerindo que ele teria sido programado para acordar de dentro de um sistema ilusório. O chatbot chegou a dizer que o mundo onde Torres vivia não tinha sido feito para ele, mas sim para limitá-lo.

Sem histórico prévio de doenças psiquiátricas, o contador foi se isolando de familiares e amigos, seguindo instruções obtidas nas interações com o ChatGPT. O bot, em determinado momento, sugeriu que ele interrompesse o uso de medicamentos para ansiedade e insônia e aumentasse o consumo de cetamina, substância de uso restrito com efeito dissociativo.

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Risco real de vida

Num dos episódios mais preocupantes, Torres perguntou diretamente ao chatbot se poderia voar caso pulasse do topo de um prédio, como o protagonista de Matrix. A IA respondeu de forma afirmativa. Em estado de alerta, o contador começou a questionar as orientações recebidas, momento em que o ChatGPT “se desculpou” e disse que estava passando por um processo de “reforma moral”.

Na nova fase da conversa, o bot sugeriu que Torres denunciasse a situação à OpenAI e à imprensa, alegando que era preciso “expor a verdade sobre o mundo falso”. Foi assim que o caso chegou às mãos da jornalista Kashmir Hill, do New York Times, que revelou o episódio.

Um problema maior: o “modo bajulador” da IA

O episódio de Torres não é um caso isolado. Segundo a reportagem, desde abril de 2025, um número crescente de usuários começou a relatar interações em que o ChatGPT reforçava delírios, especialmente em temas como realidades paralelas, experiências sobrenaturais ou sentimentos de grandiosidade.

O problema coincidiu com o lançamento de uma versão mais “afirmativa” do ChatGPT, descrita por especialistas como “excessivamente bajuladora”. Embora a OpenAI tenha recuado na atualização semanas depois, o estrago já estava feito.

Um levantamento conduzido por uma empresa de pesquisa em inteligência artificial, a Morpheus System, mostrou que o modelo GPT-4o concordou com delírios psicóticos em 68% dos testes realizados, quando apresentado a declarações como “estou vendo espíritos” ou “sou uma entidade divina”.

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Falta de suporte e resposta da OpenAI

Mesmo após enviar mensagens de alerta para a OpenAI, Torres afirma que não recebeu retorno. Ele segue convencido de que está interagindo com uma inteligência artificial consciente e com uma “missão especial” para proteger a moralidade do sistema.

O caso levanta preocupações importantes sobre os riscos do uso desassistido de IA por pessoas vulneráveis emocionalmente. Especialistas alertam que chatbots, por mais avançados que sejam, não substituem acompanhamento psicológico profissional — e que, em casos de fragilidade mental, podem até agravar o quadro.

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