Nos bastidores da redemocratização brasileira, um drama pessoal se desenrolava longe dos olhos do público. Tancredo Neves, eleito presidente por voto indireto em 1985, enfrentava dores abdominais persistentes enquanto liderava o país rumo ao fim do regime militar. Reservado, evitava médicos e escondia a gravidade de sua condição até o limite.
Durante a campanha das Diretas Já, mesmo debilitado, Tancredo mantinha uma agenda intensa. Segundo relatos de jornalistas que o acompanhavam, ele minimizava os sintomas. “Vitamina P… de poder”, respondeu uma vez, quando questionado sobre como conseguia suportar o ritmo das viagens.
Com a emenda das diretas rejeitada pelo Congresso, Tancredo emergiu como figura de consenso para comandar a transição democrática. Sua candidatura foi construída sobre uma ampla frente política, que uniu diferentes correntes em torno de um objetivo comum: o fim da ditadura. José Sarney foi escolhido como vice.
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A saúde de Tancredo, no entanto, seguia frágil. Na noite anterior à posse, ele sentiu fortes dores e foi levado às pressas para o Hospital de Base, em Brasília. Segundo o deputado Aécio Neves, seu avô resistiu a ser operado até ser convencido por um parente de que o então presidente João Figueiredo autorizaria a transferência de poder a Sarney — o que não era verdade, mas serviu para viabilizar o atendimento.
Após dias de incerteza, Tancredo foi transferido para o Hospital das Clínicas, em São Paulo. O infectologista David Uip, que integrava a equipe médica, revelou que o político sofria de uma infecção generalizada causada por um tumor benigno não tratado. Apesar dos esforços, que incluíram o uso de antibióticos importados e técnicas modernas para a época, o quadro se agravou.
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Tancredo faleceu em 21 de abril de 1985, após 39 dias de internação, sem jamais assumir o cargo de presidente. “Ele tinha fibrose pulmonar, falência de múltiplos órgãos… foi uma batalha intensa”, lembrou Uip, que acompanhou a autópsia.
Mesmo sem chegar à cadeira presidencial, Tancredo tornou-se um dos maiores símbolos da democracia brasileira. “Em todos os momentos em que a democracia foi ameaçada, ele esteve entre os que a defenderam com firmeza”, afirma a historiadora Heloisa Starling.
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