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quarta-feira, setembro 16, 2026

Alta nos diagnósticos de autismo nos EUA reacende debate sobre causas e definição do transtorno

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Um recente pronunciamento do Secretário de Saúde dos Estados Unidos reacendeu uma antiga controvérsia sobre o autismo. Ao classificar o aumento de diagnósticos como uma “epidemia catastrófica”, Robert F. Kennedy Jr. prometeu investir em pesquisas para identificar e eliminar as possíveis causas do transtorno. A fala, no entanto, foi recebida com críticas por parte da comunidade científica e de ativistas ligados à neurodiversidade.

“O Instituto Nacional de Saúde está totalmente comprometido em não deixar pedra sobre pedra no enfrentamento dessa epidemia catastrófica – empregando apenas ciência de alto nível e baseada em evidências”, declarou o porta-voz Andrew Nixon. Para o governo, é possível chegar a respostas em poucos meses. Já para os especialistas, esse tipo de expectativa ignora décadas de estudos sobre o tema.

Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), em 2020, cerca de 1 em cada 36 crianças americanas foram diagnosticadas com transtorno do espectro autista (TEA), um número que representa um salto considerável em comparação com os dados do ano 2000, quando a taxa era de 1 a cada 150.

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Apesar do aumento nos números, pesquisadores defendem que não há evidência de que esteja em curso uma epidemia no sentido tradicional. Para eles, o que se observa é uma ampliação dos critérios diagnósticos e uma maior conscientização sobre o espectro autista.

“Agora é comum diagnosticar pessoas com sinais muito mais sutis, o que explica parte do aumento da prevalência”, explica Geoff Bird, neurocientista da Universidade de Oxford e da University College London. Ele também aponta que o autismo deixou de ser reconhecido apenas pelas manifestações em meninos, permitindo diagnósticos mais assertivos em meninas.

“O diagnóstico do autismo sempre foi o maior desafio na pesquisa, porque não temos um marcador biológico do espectro do transtorno autista”, diz Bird. Isso significa que os profissionais precisam basear suas análises em aspectos comportamentais e subjetivos, o que pode variar bastante.

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A ciência ainda não identificou uma única causa para o autismo. A maioria dos estudos indica que fatores genéticos desempenham papel predominante, com algumas pesquisas apontando que mutações hereditárias estão presentes em até 80% dos casos. Já os fatores ambientais, como a exposição a poluentes ou alterações no eixo intestino-cérebro, ainda carecem de evidência conclusiva.

“Sem dúvida, os poluentes fazem mal, mas eu ficaria surpreso se eles estivessem aumentando as taxas de autismo”, afirma Bird, ressaltando que as teorias sobre causas externas seguem inconclusivas.

A teoria que associa vacinas ao autismo já foi amplamente desmentida por pesquisas científicas de grande escala. Ainda assim, ela reaparece no discurso público, alimentada por desinformação. “Não foi encontrada nenhuma ligação entre o autismo e as vacinas, incluindo aquelas que contêm timerosal, um composto à base de mercúrio”, afirma o Instituto Nacional de Saúde dos EUA.

O boato teve origem em um estudo publicado em 1998 e, posteriormente, retirado por erros metodológicos e falta de evidência. Mesmo com o consenso científico, Kennedy já afirmou que “nenhuma vacina é segura e efetiva” — uma declaração que gerou preocupação ao ser nomeado para o cargo.

A fala de Kennedy sobre o autismo gerou desconforto entre defensores da neurodiversidade. A Associação Nacional do Autismo do Reino Unido classificou a abordagem do governo como um “golpe publicitário de notícias falsas”.

“Estamos surpresos com a maneira insensível e anticientífica com que Trump e RFK Jr. falam sobre as pessoas autistas”, disse Tim Nicholls, diretor da entidade britânica. A ONG sugere que os recursos sejam direcionados para melhorar as condições de vida e a inclusão social de pessoas com TEA.

Para muitos ativistas, o autismo não deve ser encarado como uma doença a ser curada, mas sim como uma forma distinta de funcionamento neurológico. “A conscientização provavelmente aumentou o número de pessoas que procuram uma avaliação e um diagnóstico e, portanto, podem se sentir aliviadas quando encontram respostas e possíveis próximos passos”, afirma Suzy Yardley, CEO da ONG Child Autism UK.

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