
Eleições de meio de mandato nos EUA podem redefinir o equilíbrio no Congresso e influenciar a agenda de Donald Trump. (Foto: Instagram)
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos ocorrem em meio à forte polarização política e podem se tornar um teste importante para o governo de Donald Trump. Embora a Presidência não esteja em disputa, a votação definirá a composição do Congresso e poderá influenciar a capacidade do presidente de aprovar medidas, executar sua agenda e manter a pressão sobre outros países, inclusive o Brasil.
Marcada para 3 de novembro, a eleição envolve as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. Os republicanos controlam atualmente as duas Casas, mas os democratas buscam conquistar maioria para ampliar a fiscalização do governo e dificultar a aprovação de propostas da Casa Branca. A disputa acontece em um cenário de rejeição histórica ao governo Trump.
Imigração, economia, segurança e política externa estão entre os temas em debate. O discurso anti-imigrante de Trump é um dos pontos de conflito com os democratas, que criticam as operações migratórias e as restrições do governo. A oposição também pode usar o caso de Flávio Bolsonaro, que fugiu do Brasil e foi para os Estados Unidos, para questionar a coerência da política migratória republicana.
Para o Brasil, a política comercial americana é uma das principais preocupações. Uma vitória democrata em uma ou nas duas Casas pode ampliar a resistência às tarifas impostas por Trump sobre produtos brasileiros e abrir caminho a novas discussões. Vito Villar, coordenador de Comércio Internacional da BMJ Consultores, avalia que a mudança na composição do Legislativo pode afetar diretamente a agenda comercial dos Estados Unidos.
Segundo Villar, o Senado americano já aprovou o fim do tarifaço contra o Brasil, mas a proposta não avançou na Câmara, controlada pelos republicanos. Uma Câmara democrata poderia destravar o texto, embora Trump ainda tenha poder de veto. O comércio entre os dois países movimenta cerca de US$ 135,7 bilhões por ano.
A mudança no Congresso, porém, não significaria necessariamente uma alteração na política externa dos Estados Unidos. As diretrizes diplomáticas são definidas sobretudo pela Casa Branca, e a estratégia de Trump para a América Latina deve seguir priorizando segurança, combate ao narcotráfico e aproximação com governos de direita. Um Congresso democrata poderia intensificar a fiscalização e as críticas às tarifas e à pressão política sobre o Brasil.
Uma eventual perda da maioria republicana também levanta dúvidas sobre a reação de Trump. Ele poderia ter mais dificuldade para implementar sua agenda e precisar negociar com os democratas, mas também poderia buscar medidas mais incisivas em outras áreas. Ricardo Leães, professor de Relações Internacionais da ESPM, afirma que não há como prever uma resposta única: em vez de adotar uma postura moderada, Trump poderia tentar demonstrar força por outros meios.
Na avaliação de Leães, ações mais duras na América Latina poderiam ser uma alternativa, e o Brasil poderia voltar ao centro de tensões diplomáticas, diante das divergências entre o governo americano e a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. Como o hemisfério ocidental é prioridade estratégica para a atual administração dos Estados Unidos, uma derrota republicana no Congresso não significaria automaticamente menos pressão sobre os países latino-americanos.



