
Ofertas de cortes de carne expostas em açougue de mercado (Foto: Instagram)
Seja eleito Flávio Bolsonaro (PL) ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo (25/10), o próximo presidente, que tomará posse em 5 de janeiro, terá de enfrentar a insatisfação dos brasileiros com o custo de vida, a cobrança por um ajuste nas contas públicas e a perspectiva de desaceleração do crescimento em 2027. Economistas consultados pela BBC News Brasil apontam que nenhum dos candidatos apresentou um plano claro e viável para conter a dívida pública, que atingiu R$ 11,1 trilhões em agosto.
A dívida bruta do setor público — que inclui governo federal, Previdência, estados e municípios — representa 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados do Banco Central. Esse endividamento se agrava quando os gastos do governo superam as receitas, obrigando-o a tomar empréstimos a juros elevados e criando uma “bola de neve” fiscal. A falta de perspectiva de estabilização do endividamento impede uma redução mais rápida da taxa básica de juros, encarece financiamentos, freia investimentos e afeta o crescimento econômico.
Flávio Bolsonaro tem sinalizado um ajuste fiscal de 1,5% a 2% do PIB nos primeiros 18 meses de governo, o que equivale a cortes entre R$ 190 bilhões e R$ 250 bilhões. Ele defende um “tesourão” em gastos públicos e redução de impostos, prometendo, ao mesmo tempo, manter ganho real no salário mínimo, preservar os pisos constitucionais da Saúde e da Educação e não alterar o valor de aposentadorias e benefícios sociais. Seu plano inclui cortar ministérios, cargos comissionados, despesas administrativas e supersalários, além de intensificar o combate à corrupção.
Lula, por sua vez, aprovou um pacote de medidas eleitorais que somam quase R$ 200 bilhões até 2030, sem apresentar compensações em corte de despesas. A proposta de tarifa zero nos transportes aos fins de semana é um exemplo de iniciativa que amplia o gasto público. O ex-presidente defende que o crescimento econômico e a ampliação da arrecadação são suficientes para reduzir a relação dívida/PIB, mantendo os programas sociais sem cortes significativos.
Para economistas como Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, e Felipe Salto, da Warren Investimentos, o grande risco de ambos os planos é a ausência de um ajuste fiscal bem definido durante a campanha. Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, lembra que as promessas de Flávio podem não fechar as contas se forem baseadas apenas em cortes administrativos e venda de ativos, sem mexer em despesas obrigatórias ou subsídios fiscais. No caso de Lula, a descrença do mercado em sua capacidade de controlar gastos pode pressionar ainda mais juros futuros e o câmbio.
A avaliação geral é que, independente do vencedor, “a realidade vai se impor” e um ajuste será inevitável. Salto defende que qualquer correção deve ser gradual para evitar uma recessão: “A economia já desacelera desde meados de 2025, com projeção de crescimento em torno de 1% para 2027. Um corte abrupto pode levar a uma queda prolongada da atividade.” De modo uníssono, os especialistas apontam que um governo bem-sucedido será aquele capaz de deixar bases sólidas para o crescimento dos anos seguintes, adotando medidas fiscais responsáveis sem mergulhar o país em nova crise econômica.



