
Lula em momento de reflexão durante evento político (Foto: Instagram)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta uma derrota potencial que pode encerrar sua trajetória política e alinhar o Brasil a uma guinada conservadora que varre a América Latina. Essa avaliação é apresentada pelo jornalista Ishaan Tharoor em uma coluna publicada em 21 de outubro na revista americana The New Yorker.
No segundo turno, Flávio Bolsonaro desponta como favorito, apontam as análises. No primeiro turno, o filho do ex-presidente obteve um resultado surpreendente ao ficar à frente de Lula, reforçando um padrão histórico desde 1989: quem vence a etapa inicial tende a ganhar também a disputa final. Tharoor lembra que o petista ainda espera os votos de milhões de eleitores que não compareceram ao primeiro turno.
O texto destaca que, mesmo com uma vitória apertada, Lula ficará refém de um Congresso e de governos estaduais dominados pela direita. A perspectiva de um mandato limitado decorre do predomínio conservador nas esferas federais, cenário que, segundo o jornalista, reflete um movimento ideológico similar ao trumpismo nos Estados Unidos.
Intitulada “A última dança de Lula”, a coluna faz referência à música Under Pressure e revisita as conquistas dos dois primeiros mandatos do petista: redução do desmatamento na Amazônia, liderança brasileira em pautas ambientais, protagonismo no Sul Global e vultosos programas sociais, impulsionados pela alta das commodities, que tiraram dezenas de milhões de pessoas da pobreza.
O artigo também menciona a derrocada política de Lula após o impeachment de Dilma Rousseff e a Operação Lava Jato, que o manteve preso por 580 dias, entre abril de 2018 e novembro de 2019. Apesar de seu retorno ao Planalto em 2022, o presidente não conseguiu convencer parcelas do eleitorado afetadas pelo alto custo de vida, insegurança e pessimismo quanto ao futuro do país.
Sobre Jair Bolsonaro, Tharoor o descreve como ex-militar saudoso da ditadura, responsável por desmontar proteções ambientais, cortar verbas de universidades e de programas habitacionais, além de conduzir de forma desastrosa o enfrentamento da pandemia. Em 8 de janeiro de 2023, milhares de apoiadores invadiram prédios públicos em Brasília, episódio enquadrado como tentativa de golpe; o ex-presidente cumpre pena de 27 anos em regime domiciliar.
Flávio Bolsonaro se apresenta hoje como uma versão mais moderada do pai, mas não esconde planos de promover a anistia a Jair Bolsonaro e de responsabilizar ministros do Supremo Tribunal Federal que confirmaram sua condenação. A transparência dessas propostas reforça os temores de uma nova guinada autoritária.
Tharoor usa a expressão “estranho labirinto de espelhos” para traçar o paralelo entre os ataques ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 e as invasões em Brasília em 8 de janeiro de 2023. Tanto Trump quanto Bolsonaro exploraram nacionalismos divisivos, atraindo eleitores evangélicos e explorando o descontentamento popular. Apesar de compararem Lula a Joe Biden como representantes tradicionais do liberalismo, nenhum dos dois conseguiu desmontar o bolsonarismo e o trumpismo enquanto movimentos organizados.



