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sábado, outubro 17, 2026

Acabou a fé? O que levou candidatos religiosos a não se elegerem em 2026

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Posse dos novos deputados federais na Câmara dos Deputados (Foto: Instagram)

Diversas lideranças religiosas tradicionais e parlamentares com décadas de atuação e influência em algumas das principais igrejas do País não foram eleitas nas eleições de 2026. O que explica esse resultado? Especialistas consultados identificam uma combinação de fatores políticos, eleitorais e sociológicos por trás desse fenômeno.

Entre os nomes que ficaram de fora, estão Gilberto Nascimento (Podemos), líder da bancada evangélica no Congresso; Edna Macedo (Republicanos), irmã de Edir Macedo; os irmãos David Soares (Podemos) e Daniel Soares (União), filhos do missionário R.R. Soares; Cezinha de Madureira (PL), pastor da Assembleia de Deus Ministério Madureira; Padre Kelmon (PL); Padre Silvio Andrei (Avante) e Mãe Su de Nanã (PSOL).

Para o professor Luciano Gomes dos Santos, do Centro Universitário Arnaldo Janssen, a visibilidade em igrejas e o respaldo de lideranças religiosas não se traduzem automaticamente em votos suficientes. “O eleitor não decide exclusivamente pela fé: leva em conta economia, emprego, segurança, saúde, educação, corrupção e a capacidade dos candidatos de enfrentar problemas concretos”, afirma o especialista.

Santos ressalta ainda a diversidade interna dos grupos religiosos. “Não há evangélicos ou católicos formadores de um bloco político homogêneo. Eles diferem em condição socioeconômica, trajetória de vida, orientação ideológica e expectativa em relação ao Estado. Compartilhar a fé de um líder não garante concordância com suas posições políticas.”

O desgaste parlamentar também pesa. Lideranças que acumulam mandatos passam a ser cobradas pelas decisões, alianças e resultados efetivos. Quando há distância entre o discurso de campanha e a realidade percebida pelo eleitor, a confiança se abala. Em um cenário de forte polarização, alianças controversas ou a priorização de pautas morais podem afastar eleitores.

Paulo Ramirez, cientista político da ESPM, destaca que o discurso de extrema direita e antissistema teve supremacia em 2026. “O bolsonarismo radical, especialmente ligado à ‘bancada da bala’ e ao anti-institucionalismo, elegeu muitos representantes, eclipsando candidaturas evangélicas, empresariais, progressistas e de esquerda.”

Outro ponto analisado é o sistema proporcional para deputados estaduais e federais, que leva em conta tanto o desempenho individual quanto o agregado dos partidos ou federações. A fragmentação de votos no mesmo campo político, a disputa interna, o financiamento, a presença territorial e a organização das campanhas influenciam diretamente o resultado.

Apesar de múltiplas causas, Santos lembra ser essencial avaliar cada trajetória individualmente, pois cada candidato reúne história, base de apoio e experiência política distintas. Segundo ele, permanece relevante converter influência religiosa em representação, mas isso exige candidaturas competitivas, propostas consistentes e capacidade de atuação concreta. O voto, conclui, não é consequência automática da fé, e sim de uma decisão política que envolve valores, interesses, expectativas e avaliação de desempenho.

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