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sexta-feira, outubro 16, 2026

Especialistas: polarização entre direita e esquerda no Brasil não é “americanização”

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Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições de 2026 (Foto: Instagram)

O segundo turno da eleição à Presidência da República de 2026, que opõe Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), representa o ápice da polarização entre direita e esquerda no país. Esse fenômeno não se restringe ao Executivo nacional, estendendo-se também às disputas pelos governos estaduais e às vagas no Legislativo.

Apesar das semelhanças aparentes com o sistema dos Estados Unidos, especialistas descartam a ideia de uma “americanização” da política brasileira. “O sistema americano funciona como bipartidário, com republicanos e democratas dominando quase todas as disputas majoritárias, tornando os dois turnos desnecessários”, explica Maurício Santos, doutor em ciências políticas. Para Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, outro fator é a existência do colégio eleitoral nos EUA, ausente no Brasil.

O Brasil, ao contrário, é um país multipartidário, com cerca de 20 legendas representadas no Congresso. Segundo o especialista Santoro, o segundo turno estimula pequenas e médias siglas a lançarem candidaturas no primeiro turno não tanto para vencer, mas para dar visibilidade a seus nomes. Esses votos se tornam moeda de troca no segundo turno, garantindo a essas siglas a possibilidade de negociar ministérios, secretarias ou pautas específicas.

Santoro ilustra essa dinâmica com os resultados em São Paulo: juntos, Lula e Flávio Bolsonaro receberam cerca de 90% dos votos válidos, enquanto os demais candidatos somaram menos de 10%. Para ele, esse percentual residual é estratégico, pois define quem apoiará cada um dos dois finalistas na reta final da campanha.

Rodrigo Prando atribui a ausência de um terceiro candidato competitivo à polarização afetiva. Ele lembra que, em 2022, a disputa entre Jair Bolsonaro e Lula foi marcada pelo carisma de ambos. “Imaginei que Flávio teria mais dificuldade sem o carisma do pai, mas o sobrenome unido ao sentimento antipetista foi suficiente para torná-lo franco favorito. A rejeição alta de ambos os nomes, especialmente a de Lula, impede o surgimento de uma terceira via.”

Para Prando, a polarização não é apenas eleitoral, mas permeia relações familiares, igrejas, escolas, universidades e ambientes de trabalho. As redes sociais, por meio de algoritmos que captam e amplificam emoções como raiva, medo e frustração, exercem papel fundamental nesse processo de radicalização.

O aprofundamento das divisões também tem raízes regionais e históricas. Enquanto o Nordeste tende a votar mais à esquerda, Sul, Sudeste e Centro-Oeste se inclinam à direita, cenário que se acentuou após as crises econômicas graves da década passada e os escândalos de corrupção, como Lava Jato e Mensalão. Além disso, o crescimento do eleitorado evangélico, mais conservador do que o católico, contribuiu para a cristalização do voto: cerca de 90% dos eleitores já chegam às urnas com preferência definida por direita ou esquerda.

Esse clima polarizado se refletiu nas eleições estaduais, em que 20 dos 27 governadores foram eleitos no primeiro turno, recorde histórico. Partidos como PL, PSD e PT lideraram as vitórias. Para muitos especialistas, transformar adversários em inimigos enfraquece a democracia. Ao mesmo tempo, a cláusula de desempenho — que exige pelo menos 2,5% dos votos válidos para deputado federal em nove estados ou a eleição de 13 parlamentares — leva siglas a concentrar esforços no Legislativo, buscando acesso a recursos do fundo partidário e tempo de propaganda.

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