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sexta-feira, outubro 16, 2026

A crise global que Lula ou Flávio Bolsonaro enfrentarão se eleitos

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Donald Trump faz gesto de afastamento ao caminhar pelos jardins da Casa Branca (Foto: Instagram)

O próximo presidente do Brasil assumirá em um momento de alta volatilidade geopolítica. Independente de quem vença, Lula ou Flávio Bolsonaro, o país terá de reconstruir vínculos com os Estados Unidos sob a administração de Donald Trump, navegar na crescente rivalidade entre Washington e Pequim — o maior parceiro comercial brasileiro — e lidar com uma América do Sul politicamente fragmentada. Além disso, haverá o desafio das ondas de conservadorismo radical avançando na Europa.

Segundo o economista Otaviano Canuto, da Elliott School of International Affairs da George Washington University e ex-vice-presidente do BID, a conjuntura global nos próximos meses será “muito mais complexa do que a de hoje”. Canuto lembra que reaisignações ideológicas automáticas — Lula em sintonia com partidos de esquerda e Bolsonaro próximo a governos conservadores — não bastarão para antecipar como o Brasil atuará no tabuleiro internacional.

Além das eleições presidenciais brasileiras, importantes pleitos no exterior vão influenciar a agenda externa nacional. Em 3 de novembro ocorrem as eleições legislativas estadunidenses (midterms), que podem criar uma maioria democrata no Congresso, gerando atritos até 2029. Na França, a disputa presidencial entre abril e maio de 2027 e a eleição argentina em outubro do mesmo ano, assim como possíveis mudanças no Parlamento espanhol em agosto, reforçam o cenário que o professor Vinícius Mariano de Carvalho, do King’s College London, define como “surrealpolitik”.

Para Canuto e Carvalho, o novo governo terá três tarefas imediatas: retomar um diálogo estratégico com os EUA; estabelecer uma postura equilibrada na briga entre Washington e Pequim “sem se submeter a nenhum dos lados”; e reintegrar esforços de cooperação política e econômica em uma América do Sul cada vez mais dividida.

Caso Lula seja reeleito para um terceiro mandato, deverá enfrentar uma “doutrina Donroe” potencialmente mais agressiva. Trump poderá recorrer a tarifas de importação e outras medidas coercitivas para garantir acesso a minerais críticos e restringir investimentos chineses em infraestrutura. Além disso, o presidente brasileiro perderá o principal aliado europeu — Emmanuel Macron deixa o Palácio do Eliseu em maio —, mas pode estender parcerias com Índia, México e até a Rússia de Vladimir Putin.

Se Flávio Bolsonaro triunfar, terá ao menos dois anos de afinidade inicial com o governo Trump e o apoio de líderes conservadores na região, como José Antonio Kast (Chile), Abelardo de la Espriella (Colômbia) e Rodrigo Paz (Bolívia). O desafio será converter essa proximidade em resultados concretos, atendendo às expectativas de Washington em temas internos e regionais, especialmente no setor de materiais estratégicos.

Em ambos os cenários, o debate sobre a exploração de minerais críticos e terras raras ganhará destaque: o Brasil negociará esses recursos como simples commodities ou elevará seu valor agregado para aumentar seu poder de barganha? Paralelamente, será fundamental convencer os Estados Unidos de que o Brasil não representa um adversário, mas um parceiro estratégico confiável, evitando cair na mira de restrições e sanções em futuras administrações norte-americanas.

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