
Senado do Paraguai retoma nesta sexta-feira o julgamento político de Santiago Peña, em meio a protestos e à crise bancária que afetou milhões de pessoas. (Foto: Instagram)
O Senado do Paraguai marcou para esta sexta-feira (6), às 10h no horário local, a retomada do julgamento do processo de impeachment do presidente Santiago Peña. A sessão havia começado na noite anterior, mas foi adiada por falta de quórum. Em publicação no X, Peña afirmou que comparecerá e exercerá seu direito de defesa “com argumentos e provas”.
A crise política ocorre após milhares de pessoas protestarem e exigirem que o presidente deixe o cargo. Na noite de quinta-feira (5), manifestantes se reuniram nas proximidades do Congresso, em Assunção, cobrando responsabilização pela crise bancária, que congelou depósitos de três milhões de pessoas — quase metade da população do país. Também foram bloqueados recursos de órgãos estatais.
Peña anunciou a renúncia pouco depois do meio-dia de quinta-feira, após perder o apoio do Partido Colorado e de seu mentor político, o ex-presidente Horacio Cartes (2013-2018). O Congresso, porém, suspendeu a tramitação da renúncia enquanto avança o processo de destituição, e ele segue provisoriamente na Presidência. O senador governista Derlis Maidana disse que a intenção é concluir o julgamento ainda nesta sexta-feira para “tranquilizar os cidadãos”.
Após o anúncio da renúncia, deputados aprovaram por unanimidade a abertura de um julgamento político contra Peña e rejeitaram iniciar um processo contra o vice-presidente Pedro Alliana, que assumiria a Presidência. A sessão conjunta das duas câmaras que analisaria a renúncia foi cancelada por falta de quórum. Mais tarde, o Senado apresentou a acusação e agendou o julgamento. O deputado opositor Raúl Benítez afirmou que houve um esquema criminoso para esvaziar um banco, protegido por instituições controladas pelo presidente.
Peña declarou que colaborará com as autoridades e fornecerá as informações solicitadas para esclarecer os fatos. Também afirmou que a devolução dos valores aos correntistas não deve depender do resultado do processo contra ele e que a apuração e a solução dos pagamentos precisam avançar simultaneamente. Pediu calma e disse que a reivindicação dos cidadãos deve ser atendida com informações claras e ações concretas.
A crise começou na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank por grave insuficiência de capital. Peña, que presidiu o país desde 2023 e tinha mandato previsto até 2028, possuía ações de um grupo controlador da instituição e se desfez delas em 2025. Após a intervenção, pediu a renúncia do presidente do Banco Central e promulgou uma lei que estabeleceu prazo de cinco dias úteis para devolver a maior parte dos recursos aos clientes. Oposição acusa Peña de conflito de interesses e de favorecer o banco com decisões regulatórias e depósitos previdenciários.
Eleito em 2023, aos 44 anos, Peña tornou-se o presidente mais jovem da história do Paraguai. Venceu com 42,7% dos votos, ante 27,5% do adversário de centro-esquerda. Economista com passagem pelo Banco Central do Paraguai, pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Ministério da Fazenda, aproximou-se do Partido Colorado após integrar o governo de Horacio Cartes. Também estreitou relações com governos de direita da América do Sul e com Washington. Críticas à expansão do Ueno Bank vieram inclusive de integrantes do partido: o senador Oscar Salomón retirou seu apoio e acusou Peña de colocar interesses financeiros acima dos nacionais.



