
Estudantes marcham em Paris exigindo melhorias no ensino e criticando políticas de Macron (Foto: Instagram)
Depois de mais de um mês de crise social e política, o presidente francês Emmanuel Macron passou a atuar diretamente no controle dos protestos nesta sexta-feira (23). Pela primeira vez desde o início das mobilizações, ele recebeu representantes dos estudantes no Palácio do Eliseu e se encontrou com integrantes das forças de segurança, em preparação para uma nova rodada de atos previstos para o fim de semana.
Com as eleições presidenciais marcadas para daqui a seis meses e a extrema direita liderando as pesquisas, Macron convocou na manhã desta sexta-feira o Conselho de Defesa para implementar novas medidas de ordem pública. Nesta semana, já haviam sido decretados toques de recolher e proibidas manifestações em diversas cidades, numa tentativa de conter a violência que resultou em saques e confrontos.
No encontro com os estudantes do ensino médio, as principais reivindicações dizem respeito à melhoria das condições nas escolas e à reforma do Parcoursup, sistema de acesso ao ensino superior. “Vamos apresentar a ele nossas demandas, que continuam sendo as mesmas”, declarou Nathanaël Combary, presidente do grupo Renouveau Lycéen. Do outro lado, Pierre Sourzat, líder da organização Les Lycéens, avaliou com ceticismo: “Ele vai fingir que nos entendeu, e depois nada vai mudar”.
Ainda nesta sexta, o presidente se reúne com autoridades policiais para reforçar a ação das forças de segurança. Na quinta-feira, Macron defendeu “maior dureza” contra os responsáveis pelos atos de violência e acusou grupos da ultraesquerda de tentarem “derrubar a República”. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, afirmou que 217 pessoas já foram presas entre as cerca de 2.700 detidas após os distúrbios, que afetaram cerca de 3.000 estabelecimentos comerciais.
Para o sábado (24), organizadores esperam nova mobilização nacional, mas apenas manifestações promovidas por sindicatos serão autorizadas. Lyon, Marselha e outras cidades proibiram atos, decisões que ainda podem ser contestadas na Justiça administrativa. Em Paris, o percurso entre as praças da Bastilha e da Nação recebeu aval, enquanto o poder público mobiliza efetivo 20% maior do que na semana anterior, incluindo militares da operação Sentinelle, unidades de elite da polícia e da gendarmaria, além de helicópteros e veículos blindados.
No mesmo fim de semana ocorre em Orléans o congresso do Reunião Nacional (RN), sob forte esquema de segurança. A reunião, prevista para sábado e domingo, atraiu também entre 20 mil e 30 mil manifestantes contrários ao RN, como Olivier Faure, do Partido Socialista, e Sophie Binet, da central sindical CGT. Cerca de 3.000 agentes serão destacados para garantir a ordem.
Enquanto isso, líderes da esquerda criticam o governo por priorizar medidas de segurança em vez de atender às reivindicações socioeconômicas, que incluem aumento de salários, poder de compra e investimentos em serviços públicos. O Executivo, no entanto, prepara um orçamento restrito em meio ao agravamento das contas públicas. Os juros dos títulos de dez anos da dívida francesa permanecem acima de 5%, patamar não visto desde 2002, e cresce a expectativa sobre uma eventual rebaixamento da nota pelo Moody’s, o que poderia elevar ainda mais o custo da dívida pública.



