
Eleitora com mais de 70 anos mostra título de eleitor em seção de votação, público-chave no segundo turno (Foto: Instagram)
No segundo turno das eleições presidenciais de 2026, os eleitores com 70 anos ou mais tornaram-se o principal alvo estratégico das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Esse grupo, que não é obrigado a votar, registrou abstenção de 49,1% no primeiro turno, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — índice muito acima da média nacional de 21,08% e que representa mais de 8 milhões de potenciais votos. Para efeito de comparação, a diferença entre os dois candidatos na etapa anterior foi de apenas 2,2 milhões de votos.
O universo de eleitores maduros também cresceu desde 2022: eram 14,9 milhões em 2022 e passaram a 17,2 milhões em 2026, equivalendo a mais de 10% do eleitorado brasileiro. Analistas apontam que, em um pleito tão apertado, convencer parte desse contingente a comparecer às urnas pode ser tão crucial quanto conquistar novos eleitores. Como ressaltou a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, “são 17 milhões de pessoas que podem mudar o curso da eleição”.
A campanha de Lula lançou uma cartilha destinada a voluntários que estão falando com idosos, orientando-os a ouvir mais do que falar e a resgatar memórias positivas dos dois primeiros governos petistas. Intitulada “Geração Lula”, a publicação lembra a experiência pessoal dos veteranos e sugere apoio logístico, como checar o local de votação, separar documentos e combinar caronas. O próprio presidente apelou em entrevistas: “O Brasil não parou porque você fez 70 anos. Levanta a bunda e vai votar”, afirmou em participação no Flow Podcast. A estratégia inclui também críticas diretas a Flávio Bolsonaro — do reajuste do salário mínimo a cortes na Farmácia Popular — como forma de reforçar o receio de perda de benefícios.
Em resposta, o candidato do PL apresentou o programa “70 Mais”, com propostas para simplificar processos do INSS e reduzir o tempo de espera por aposentadorias, ampliar a entrega de medicamentos em domicílio e oferecer apoio a cuidadores e adaptações residenciais. Nas redes sociais, a esposa do senador, Fernanda Bolsonaro, tem desmentido mensagens falsas sobre o fim de aposentadorias e garantido a manutenção da Farmácia Popular. Flávio ainda prometeu reajustes acima da inflação e associou, em seus discursos, o governo Lula a supostas irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social.
Para Cléa Klouri, fundadora do Movimento Voto 70+, além da disputa pelo voto, o desafio é mobilizar aqueles que já escolheram candidato, mas podem optar pela abstenção. A especialista em pesquisa Cila Schulman destaca que as comunicações digitais têm menor penetração nesse público, o que exige investimento em rádio e televisão, veículos ainda eficazes entre eleitores mais velhos. Em um cenário de margem estreita, a combinação de persuasão e facilitação do acesso às urnas pode ser decisiva para o resultado final da eleição.



