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terça-feira, outubro 20, 2026

Como o aroma de carro zero-quilômetro influencia seu cérebro

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O icônico “cheiro de carro novo” é formulado por osmólogos para garantir segurança e evocar memórias afetivas. (Foto: Instagram)

O cobiçado “cheiro de carro novo” é, na verdade, um projeto deliberado da indústria automotiva que une segurança química e marketing sensorial. Sob supervisão de osmólogos—profissionais especializados em avaliação olfativa—o aroma característico evita compostos tóxicos e funciona como uma âncora que associa o veículo a ideias de status, limpeza e qualidade. De acordo com estudos em neurociência, esse estímulo olfativo ativa memórias afetivas profundas e emoções de modo inconsciente, moldando a percepção do consumidor antes de qualquer julgamento lógico.

Ao abrir a porta de um carro recém-saído da fábrica, não se trata de uma coincidência: cada modelo passa por um rigoroso processo de desenvolvimento de aroma. Equipes dedicadas avaliam e testam odores de peças plásticas, tecidos e revestimentos para criar uma assinatura olfativa única. A osmóloga veicular Maria de Lourdes Feitosa, a primeira brasileira certificada na Alemanha nessa área, explica que é fundamental registrar a memória olfativa de cada material. “Ao caracterizar odores perceptíveis, formamos um repertório olfativo que, depois, compõe o ‘cheiro de carro novo’ como um todo”, diz Feitosa em entrevista.

Além de buscar o apelo emocional, as montadoras exigem dos fornecedores laudos com valor jurídico que comprovem a ausência de substâncias nocivas como benzeno e tolueno. Esses compostos, segundo a osmóloga, podem prejudicar a saúde e foram bloqueados das fórmulas de fragrâncias veiculares. O cuidado com ingredientes e a garantia de conformidade regulatória são passos essenciais para que o aroma seja seguro e aprovado em todas as etapas de produção.

O marketing sensorial, conceito abordado em artigo da Revista Científica Multidisciplinar, define-se como uma estratégia que estimula os cinco sentidos para criar experiências emocionais positivas. Vanessa Clarizia Marchesin, professora de Psicologia do Consumidor e Neurociências da ESPM, observa que a indústria transformou o “cheiro de carro novo” em um sinal de “novo, limpo e valioso”. Segundo ela, esse estímulo olfativo consistente vira uma âncora de marca, associando a posse do veículo a sensações de status e qualidade.

Historicamente, até a década de 1960 os veículos não exibiam aromas agradáveis, devido a compostos químicos agressivos. A Audi foi uma das pioneiras a pesquisar formas de melhorar essa percepção. A partir dos anos 2000, outros fabricantes investiram em fragrâncias próprias: o Rolls-Royce Phantom, por exemplo, lançou um difusor patenteado com notas de amyris, pau-rosa, íris e cedro, enquanto a BMW Série 5 (G30) passou a usar cartuchos fragrantes substituíveis para tratar o ar interno.

Do ponto de vista da neurociência, o olfato ativa emoções e memórias antes mesmo do reconhecimento consciente do cheiro. Marchesin destaca que recordações olfativas tendem a ser mais antigas, intensas e resistentes ao esquecimento do que visuais ou sonoras. Além disso, a repetição do pareamento entre aroma e experiência—como o primeiro carro próprio ou viagens em família—gera um condicionamento clássico de valência positiva, fazendo com que o consumidor recupere sentimentos vividos, e não apenas informações declarativas.

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