Susana Trimarco passou a investigar redes de abusos na Argentina após o desaparecimento de sua filha, Marita Verón, de 23 anos, em abril de 2002. Sem conseguir respostas da polícia, ela começou a se infiltrar em locais ligados à prostituição, fingindo ser uma cafetina. Embora não tenha encontrado a jovem, suas investigações contribuíram para o resgate de mais de 129 mulheres e meninas vítimas de exploração.
Marita desapareceu em San Miguel de Tucumán, quando estava a caminho de uma consulta médica. Segundo testemunhas, a jovem foi colocada à força dentro de um carro por homens. Desde então, Susana passou a procurar informações sobre o paradeiro da filha e a investigar possíveis envolvidos no desaparecimento.
Durante as buscas, ela entrou sozinha em locais onde mulheres eram exploradas . Ao se apresentar como cafetina, conseguiu se aproximar de vítimas e conhecer relatos sobre o funcionamento das redes de tráfico de pessoas. Algumas das mulheres que encontrou chegaram a implorar por ajuda. “Não me deixe aqui”, ouviu durante uma dessas situações.
Em entrevista à BBC Brasil, Susana explicou como o desaparecimento da filha transformou sua rotina e a levou a ajudar outras vítimas. “Eu era uma mulher que vivia entre o trabalho numa repartição pública, um pequeno comércio e a família. Mas, desde o sequestro da minha filha, em abril de 2002, passei a lutar para localizá-la e acabei ajudando outras mulheres”, contou.
As informações reunidas ao longo das investigações levaram Susana a denunciar o suposto envolvimento de policiais, políticos e até de uma vizinha enfermeira no desaparecimento de Marita. O caso resultou no julgamento de 13 pessoas acusadas de participação no sequestro.
Os depoimentos de mulheres que conseguiram escapar da exploração sexual também trouxeram possíveis informações sobre a jovem. Segundo esses relatos, Marita teria engravidado de um dos sequestradores. Susana passou, então, a procurar não apenas a filha, mas também a criança que poderia ter nascido durante o período em que ela permaneceu desaparecida. “Hoje, peço às autoridades que também localizem esse bebê, que é meu neto”, afirmou. De acordo com as informações obtidas pela família, Marita teria sido vista com vida pela última vez em 2008.
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O desaparecimento também teve consequências para a família. O marido de Susana e pai de Marita morreu após enfrentar um quadro de depressão relacionado à ausência de notícias sobre a filha. Marita deixou uma menina, Micaela, que tinha apenas três anos quando a mãe desapareceu.
Além de continuar procurando a filha, Susana criou uma fundação dedicada ao atendimento de vítimas de tráfico humano. Sua atuação também contribuiu para a criação de uma legislação nacional de combate ao tráfico de mulheres na Argentina, e sua história chegou a inspirar uma novela no país.
Mesmo após anos de buscas e ameaças, Susana mantém o trabalho de assistência às vítimas e a procura por informações sobre Marita. Para ela, as duas atividades permanecem diretamente relacionadas. “Cada mulher que eu ajudo, ajuda minha filha”, declarou.



