
Flávio Bolsonaro se declara “líder do Brasil” após apagar publicação em que alegava fraude eleitoral sem apresentar provas. (Foto: Instagram)
A ida do senador Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos, depois de perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), levantou dúvidas sobre o futuro do bolsonarismo. Na quarta-feira (28/10), ele publicou na rede social X uma declaração em que se chamou de “o verdadeiro presidente do Brasil” e alegou fraude eleitoral, sem apresentar provas. Depois, apagou o texto e divulgou outro, quase igual, no qual se declarou “o líder do Brasil”.
Flávio afirmou que pretende comandar a oposição a Lula a partir dos Estados Unidos e mobilizar seus apoiadores por meios pacíficos e legítimos. Cientistas políticos, no entanto, questionam se ele conseguirá liderar o movimento de fora do país, ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro (PL), que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidido por Kassio Nunes Marques, reconheceu o resultado, assim como os principais partidos, entre eles o PL.
Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), avalia que a articulação dos irmãos não terá apoio da maior parte da população. Ele lembra que as tarifas impostas pela Casa Branca ao Brasil, após a atuação de Eduardo Bolsonaro no ano anterior, foram mal recebidas. Segundo o cientista político, partidos, inclusive o PL, praticamente deixaram de contestar a vitória de Lula. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, evitou comentar a autodeclaração de Flávio, embora tenha dito que ele recebeu visto para entrar no país.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse compreender a “revolta” de Flávio, mas defendeu o respeito ao resultado das urnas e a atuação da oposição dentro das instituições. A viagem do senador ocorreu depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou a apreensão de seu passaporte, a pedido da Polícia Federal, em investigação sobre suposta lavagem de dinheiro com o advogado e empresário Willer Tomaz. Flávio nega as acusações e diz ser alvo de perseguição política.
A família Bolsonaro enfrenta uma série de reveses, incluindo duas derrotas presidenciais seguidas, a prisão de Jair Bolsonaro (PL) e a saída do país de dois filhos com projeção política. Em 2027, Michelle Bolsonaro assumirá seu primeiro mandato eletivo, como senadora pelo Distrito Federal. Carlos Bolsonaro (PL) será senador por Santa Catarina, e Jair Renan (PL), deputado federal pelo mesmo estado. Tarcísio, reeleito no primeiro turno para governar São Paulo, também é apontado como possível liderança, com alguma autonomia em relação à família.
A pesquisadora Daniela Costanzo, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), considera que o bolsonarismo continuará forte por funcionar como um “partido digital”, organizado nas redes sociais. Para ela, porém, a liderança de Flávio ficará enfraquecida, abrindo espaço a outros nomes. Além de Tarcísio, cita Sergio Moro (PL), eleito governador do Paraná, Cleitinho Azevedo (Republicanos), governador eleito de Minas Gerais, e Nikolas Ferreira (PL-MG), deputado reeleito. Michelle também é vista por Costanzo como uma liderança com força própria, impulsionada pelo trabalho à frente do PL Mulher.
Teixeira, por sua vez, prevê uma lacuna e defende que partidos de direita reduzam a dependência da família Bolsonaro. Ele questiona o potencial de Michelle, Carlos e Jair Renan para liderar o campo. Já Fábio Baldaia, professor do Instituto Federal da Bahia (IFBA) e coautor de “Bolsonarismo e o Brasil Profundo”, acredita que o movimento seguirá forte. Para ele, o bolsonarismo reúne ideias e práticas anteriores à ascensão de Jair Bolsonaro e conquistou espaço no Congresso, nas redes e na articulação política nos Estados Unidos.



