
Lula vence Flávio Bolsonaro no segundo turno e conquista seu quarto mandato presidencial. (Foto: Instagram)
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, realizado no domingo, 25, e foi eleito presidente da República pela quarta vez. Especialistas apontam que não houve um único fator decisivo: pesaram o engajamento de apoiadores nas ruas e nas redes, a busca por eleitores indecisos, o desgaste da imagem de Flávio e o receio de um retorno da família Bolsonaro ao poder.
A vitória, avalia a cientista política Flávia Bozza, não representa necessariamente adesão ao presidente ou ao PT. Para ela, a desconstrução da imagem do adversário e o medo de uma volta dos Bolsonaro tiveram mais peso do que uma decisão direta de votar no petista. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio obteve 47,03% (56.104.503 votos), ante 45,16% (53.879.538 votos) de Lula, resultado que surpreendeu a campanha petista.
No segundo turno, com 100% das urnas apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula alcançou 51,79%, ou 64,2 milhões de votos. Flávio ficou com 48,21%, equivalente a 59,8 milhões. Bozza afirma que a possibilidade de Flávio chegar ao poder mobilizou jovens e apoiadores de Lula, que o viam como um candidato que desafiava a Constituição e flertava com o golpismo.
A campanha de Lula mudou o foco para os indecisos. Nas redes sociais, o candidato publicou vídeos em formato de selfie e ampliou o diálogo com jovens influenciadores. No primeiro turno, mais de 33 milhões de eleitores não votaram, o equivalente a 21,08% do eleitorado e o maior índice desde 1998. A diferença entre os dois candidatos foi de 2,2 milhões de votos. No segundo turno, a soma de abstenções, votos brancos e nulos chegou a uma mínima histórica.
Também teve destaque o grupo “Exército do Lula”, criado e administrado no WhatsApp pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Após o resultado do primeiro turno, ele convocou apoiadores para o canal, que passou de 10 milhões de seguidores. Ali foram organizadas ações em favor da candidatura e contra a imagem do adversário. O grupo se tornou alvo de processos e decisões no TSE.
A cientista política ressalta que Lula acumulou feitos inéditos: tornou-se o primeiro presidente eleito quatro vezes e o primeiro a vencer após não terminar o primeiro turno em primeiro lugar. Torneiro mecânico, ele conquistou sua primeira eleição presidencial em 2002. Foi também o primeiro presidente sem ensino superior eleito e, após a reeleição, indicou uma sucessora, Dilma Rousseff, em 2011. Sua trajetória incluiu prisão e condenação, posteriormente anulada pela Justiça, antes de voltar ao poder.
Na reta final, Lula anunciou medidas e promessas como proibir as bets, elevar o Bolsa Família e disponibilizar canetas emagrecedoras no SUS. No segundo turno, sancionou uma lei de perdão de dívidas de MEIs e prometeu tarifa zero no transporte aos fins de semana e uma versão universitária do “Pé-de-Meia”. Sérgio Simoni Jr., professor de Ciência Política da USP, avalia que os compromissos podem ter rendido votos pela credibilidade associada ao histórico de benefícios sociais, mesmo sem todas as propostas terem sido implementadas.
Simoni também aponta que, no primeiro turno, discussões sobre o STF e denúncias ligadas ao Banco Master desviaram a atenção da disputa presidencial. Flávio conseguiu se apresentar como um Bolsonaro mais moderado, mas, no segundo turno, a comparação direta e as acusações de corrupção e de que cortaria programas sociais ajudaram a explicar a virada. A vitória, contudo, não garante um governo tranquilo: sem maioria no Congresso, Lula pode enfrentar dificuldades para governar e precisar fazer concessões.



