
Manifestação na Avenida Paulista reúne apoiadores do chamado “Partido Digital Bolsonarista” (Foto: Instagram)
As eleições brasileiras deste ano escancaram a disparidade entre a organização online do bolsonarismo e a atuação digital da esquerda. De um lado, o que o professor Marcos Nobre chama de “Partido Digital Bolsonarista” (PDB) opera de forma coesa dentro das redes sociais, influenciando o debate público e articulando alianças. Do outro, a esquerda segue fragmentada em “ilhas” que ainda encaram a internet como ferramenta de apoio, e não como ambiente nativo.
Marcos Nobre, professor de filosofia política na Unicamp e diretor-geral do Centro para Imaginação Crítica do CCI/Cebrap, coordena pesquisas sobre a emergência do PDB. Trata-se de uma estrutura sem CNPJ ou registro oficial, mas com hierarquia, estratégia de mobilização, agenda própria e capacidade de eleger representantes. Em entrevista, ele destacou que o partido digital se integra a legendas tradicionais – sobretudo o PL –, obtendo recursos eleitorais e influência fora das redes.
Segundo Nobre, o PDB já pode ser considerado o maior bloco do Congresso, dado seu alcance nas redes e a adesão majoritária de parlamentares bolsonaristas. Levantamentos internos apontam que 84% dos eleitos pelo PL se identificam como bolsonaristas, mas a força digital também se estende a outras siglas, como Podemos e PSD, ainda que em proporções menores. Esse ecossistema digital se desenha como uma estrutura capaz de expandir sua base e hegemonizar o bolsonarismo.
Um exemplo emblemático desse modelo é o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), hoje o mais votado do país. Ele exemplifica a transição de influenciador para político profissional: utiliza redes sociais não apenas para divulgar discursos, mas como plataforma central de suas ações, formando seguidores e moldando pautas. Para Nobre, esse formato de atuação comprova a solidez do partido digital, algo inédito no campo da direita.
Na esquerda, embora alguns deputados tenham origem nas próprias redes – caso de Jones Manoel (PSOL-PE) e Ana Elisa (PT-MG) –, não se constitui um partido digital equivalente. A dispersão em vários coletivos impede a criação de uma agenda unificada e de um fluxo contínuo de mobilização. Segundo o cientista político, iniciativas isoladas até geram impacto pontual, mas carecem de coesão de médio e longo prazo.
O canal de WhatsApp “Exército de Lula”, lançado pelo deputado André Janones (Rede-MG) após o primeiro turno, chegou a reunir 6,6 milhões de inscritos, mas mostra os limites de táticas concentradas. Para Nobre, chamar esse canal de “exército” é válido para ações de curto prazo, mas não se sustenta como estrutura permanente, já que não integra a hierarquia do PT e tende a depender unicamente de seu criador.
Essa experiência, porém, pode funcionar como alerta para o campo progressista. A convicção de Nobre é que, pela primeira vez, a esquerda percebe de modo mais claro sua desvantagem digital e começa a buscar estratégias alinhadas à lógica dos algoritmos. Aprender a criar formatos nativos na internet e costurar uma rede coesa são desafios urgentes para quem deseja disputar influência no mundo conectado.



