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quarta-feira, outubro 7, 2026

Um ano depois do beijo no chão: como vive hoje o brasileiro deportado dos EUA

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Quando César Diego Justino, de 40 anos, ajoelhou-se e beijou o chão ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Fortaleza, em fevereiro de 2025, a cena correu o país. O gesto, captado em vídeo, simbolizou o alívio de voltar para casa após meses preso em centros de detenção nos Estados Unidos — e também expôs os efeitos da política migratória endurecida do então presidente Donald Trump.

Quase um ano depois, longe das câmeras, César tenta reconstruir a vida no Brasil. O retorno trouxe segurança emocional, mas também deixou cicatrizes financeiras, psicológicas e a sensação de abandono institucional.

O sonho e a travessia

Corretor de imóveis em Caldas Novas (GO), César decidiu migrar em agosto de 2024. A ideia não nasceu da miséria, mas da expectativa de melhorar a condição da família. Planejava permanecer cerca de cinco anos nos EUA e, depois, levar a esposa e os filhos.

Sem recorrer a atravessadores, percorreu países da América Central até chegar à fronteira norte-americana. Ao se apresentar às autoridades dos EUA, solicitou asilo. Foi detido no Texas e passou quatro meses em centros de custódia migratória.

Segundo ele, as condições materiais eram básicas, mas organizadas. Para ocupar o tempo, trabalhou na cozinha da unidade. O pedido de asilo chegou a avançar, mas acabou arquivado por perda de prazo na entrega de documentos. “Perdeu o prazo, acabou. Lá não tem jeitinho”, relata.

Durante a detenção, afirma não ter recebido apoio efetivo do consulado brasileiro. “A sensação era de completo desamparo”, diz.

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O voo de deportação

César estava no segundo voo de brasileiros deportados durante a nova fase da política migratória americana. O embarque, segundo ele, ocorreu de madrugada, sem aviso prévio. Apesar da tensão, o sentimento predominante foi de alívio.

O avião pousou em Fortaleza em 7 de fevereiro de 2025 com 111 brasileiros, muitos deles algemados durante o trajeto. Relatos apontaram fome, cansaço extremo e sofrimento emocional. Autoridades locais confirmaram que os deportados chegaram abalados psicologicamente.

Foi nesse desembarque que César beijou o chão, em silêncio, num gesto espontâneo que se tornaria símbolo das deportações em massa.

O retorno e o vazio

Na chegada, houve recepção oficial, distribuição de kits básicos e encaminhamentos iniciais. Depois disso, segundo César, o contato institucional cessou. “Nunca mais ninguém me procurou para orientar sobre trabalho, documentos ou apoio psicológico.”

Hoje, ele voltou a atuar como corretor de imóveis e também trabalha em uma concessionária de energia em Goiás. A rotina é estável, mas o prejuízo financeiro — estimado em cerca de R$ 100 mil — ainda pesa. Mais difícil, segundo ele, foi lidar com o impacto simbólico da deportação. “Você se sente descartado, como se não valesse nada.”

A principal rede de apoio foi a família, que sustentou o recomeço emocional e prático.

++ Este é Bruce Lee fazendo flexão com apenas dois dedos

Resposta do governo

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania informou que acompanha relatos de brasileiros deportados desde 2025 e que criou o Programa Aqui é Brasil, voltado ao acolhimento humanitário e à reintegração social de repatriados.

Segundo a pasta, a iniciativa prevê apoio psicossocial, orientação para acesso a políticas públicas e incentivo à reinserção econômica, em articulação com outros órgãos, como o Ministério das Relações Exteriores.

Até a conclusão da reportagem, o Itamaraty não havia detalhado ações específicas no caso de César.

Aprendizado amargo

Hoje, César diz não ter mais planos de deixar o Brasil. O sonho americano ficou para trás. “Se for para ir, que seja do jeito certo. Ir ilegal é humilhante, sofrido. Eu não aconselho.”

O beijo no chão marcou o fim de uma expectativa. O que veio depois, longe dos holofotes, revelou uma realidade pouco visível: a deportação não termina no pouso. Sem políticas públicas contínuas de acolhimento e reintegração, o retorno é apenas o início de uma luta silenciosa — individual e, muitas vezes, esquecida.

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