
Avanço democrata no Congresso dos EUA deve dificultar a agenda interna de Trump, sem aliviar a pressão sobre o Brasil. (Foto: Instagram)
A vitória democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos deve impor mais obstáculos à agenda interna do presidente Donald Trump, mas não deve alterar a pressão de seu governo sobre o Brasil. Analistas avaliam que o Congresso tem poucos instrumentos para interferir na política externa e no protecionismo comercial, áreas em que democratas e republicanos costumam convergir.
As medidas em discussão incluem tarifas sobre produtos brasileiros, a pressão para que o Brasil se afaste da China — seu principal parceiro comercial desde 2009 — e a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. Essa designação abriu uma brecha para possíveis incursões militares dos EUA no país.
Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre 2007 e 2009, e ex-diretor do Banco Mundial, afirma que um Congresso mais democrata pode ampliar o diálogo com o Itamaraty, mas não tem poder para mudar a política comercial de Trump. Ele prevê pedidos de explicações e projetos contrários à agenda do Executivo, inclusive questionamentos sobre a presença de Flávio Bolsonaro na Flórida, sem impacto direto sobre as tarifas.
Os resultados disponíveis indicam que os democratas voltarão a controlar a Câmara dos Representantes, com 237 parlamentares contra 139 republicanos, e o Senado, com 54 cadeiras contra 44. Ainda havia apurações pendentes no Mississippi e no Alasca. A nova composição começa em 3 de janeiro de 2027. Atualmente, os republicanos têm 53 cadeiras no Senado e 220 na Câmara.
Para Lucas Leite, professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), o governo de Lula poderá encontrar mais interlocução com parlamentares democratas em temas como meio ambiente, mas isso não será suficiente para reverter a política externa de Trump. Os congressistas devem concentrar esforços na oposição a iniciativas internas, especialmente às deportações conduzidas pela agência de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).
Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), prevê que democratas à frente das comissões de Relações Exteriores poderão cobrar explicações do Departamento de Estado, administrado por Marco Rubio. O secretário esteve envolvido em ações dos EUA na América Latina, como a prisão de Nicolas Maduro após uma incursão militar na Venezuela, em janeiro, e o embargo energético a Cuba. Também criticou Lula após o anúncio de novas tarifas, em julho.
Leite avalia que o Congresso dificilmente reverterá as tarifas impostas com base na Seção 301 ou a aplicação da Lei Magnitsky, mecanismos sob controle do Executivo. A taxa anunciada em julho pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) foi de 25%; com as exceções definidas pela Casa Branca, alguns produtos brasileiros estão sujeitos a uma cobrança de 37,5%. A Seção 301 entrou em vigor em 1974.
A Lei Magnitsky, criada em 2012, durante o primeiro mandato de Barack Obama, restringe movimentações financeiras em ativos administrados pelos EUA. Trump incluiu Alexandre de Moraes na lista em julho do ano passado e, meses depois, sua esposa, Viviane Barcie Moraes. Ambos foram retirados em dezembro, mas o Financial Times noticiou a possibilidade de o ministro voltar à lista. Para Carlos Gustavo Poggio, professor do Berea College, Trump governa recorrendo a decretos: assinou 225 no ano passado e, em 2026, elevou o total para 290. A avaliação da constitucionalidade cabe à Suprema Corte; derrubar um veto presidencial exigiria dois terços dos votos nas duas Casas.



