Crianças cujas mães tiveram depressão durante a gravidez podem apresentar maior probabilidade de receber diagnósticos de autismo e transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), segundo um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Glasgow, na Escócia. A pesquisa acompanhou mais de 167 mil crianças nascidas no País de Gales, entre 2009 e 2016, e identificou uma associação entre a condição materna e dificuldades de desenvolvimento e aprendizagem, independentemente do uso de antidepressivos.
Publicado na revista científica PLOS Medicine, o levantamento analisou informações das crianças até 2022. Os pesquisadores buscaram compreender se as necessidades educacionais especiais observadas entre os participantes estavam relacionadas à depressão materna, ao tratamento medicamentoso ou a outros fatores associados à saúde das gestantes.
Entre as crianças acompanhadas, 12.630, o equivalente a 7,6% da amostra, tinham mães com depressão durante a gravidez que não receberam tratamento com antidepressivos. Outras 7.005, correspondentes a 4,2%, foram expostas tanto à depressão materna quanto ao uso desses medicamentos. Além disso, 5.996 crianças, ou 3,6%, tiveram exposição a antidepressivos, embora suas mães não apresentassem diagnóstico de depressão registrado.
Os resultados indicaram que 23,6% dos filhos de mulheres com depressão não tratada com antidepressivos apresentariam necessidades educacionais especiais. Entre aqueles cujas mães receberam diagnóstico e utilizaram a medicação, a estimativa foi de 26,5%. Já no grupo exposto aos medicamentos sem registro de depressão materna, o percentual chegou a 26,3%.
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Embora os números indiquem uma diferença entre os grupos, os pesquisadores destacaram que não é possível atribuir diretamente aos antidepressivos o aumento observado. Isso porque mulheres com quadros depressivos mais graves também podem apresentar maior probabilidade de receber tratamento medicamentoso.
A médica Saraid McIlvride, da Universidade de Glasgow, responsável pela pesquisa, explicou que a falta de informações sobre os efeitos de longo prazo desses medicamentos ainda dificulta as decisões relacionadas ao tratamento durante a gestação. “O uso de antidepressivos durante a gravidez está aumentando, mas, atualmente, os efeitos de longo prazo desses medicamentos sobre o desenvolvimento infantil não são claros”, afirmou.
A pesquisadora ressaltou que a doença sem tratamento também pode trazer consequências para a saúde da gestante e do bebê, tornando necessária uma avaliação cuidadosa dos benefícios e riscos de cada abordagem. “Ter depressão não tratada durante a gravidez também apresenta seus próprios riscos, o que torna muito difícil para alguém com depressão tomar decisões informadas sobre usar ou não medicamentos durante a gestação”, explicou.
Segundo McIlvride, a análise encontrou uma associação entre o uso de antidepressivos e uma frequência ligeiramente maior de necessidades educacionais especiais, mas os resultados não permitem estabelecer que os medicamentos sejam responsáveis por essa diferença. “Mostramos que, se mulheres com depressão tomassem antidepressivos durante a gravidez, seus filhos teriam maior probabilidade de apresentar necessidades educacionais especiais. Mas foi apenas um aumento muito pequeno e pode ter ocorrido porque elas tinham depressão mais grave, e não por um efeito do medicamento”, declarou.
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Os pesquisadores também alertaram que os resultados não devem ser interpretados como uma recomendação para interromper tratamentos durante a gestação. A decisão sobre o uso de antidepressivos precisa considerar as condições de saúde de cada paciente e os possíveis efeitos da ausência de tratamento. “Nossos resultados não sugerem que as mulheres devam interromper automaticamente o uso de antidepressivos, porque a depressão pode prejudicar tanto a mãe quanto o bebê se não for tratada”, reforçou a médica.
O estudo também chama a atenção para a necessidade de ampliar as pesquisas sobre medicamentos utilizados durante a gravidez e a amamentação. A Sociedade Britânica de Farmacologia já havia solicitado orientações baseadas em evidências científicas para auxiliar gestantes e mães recentes na escolha de tratamentos.
Atualmente, mulheres grávidas e lactantes frequentemente ficam de fora de estudos clínicos, o que limita as informações disponíveis sobre a segurança de determinados medicamentos. Segundo os dados apresentados, aproximadamente 80% das mulheres utilizam pelo menos um medicamento durante a gestação.
Diante dessas limitações, os pesquisadores defendem que os riscos associados ao uso de medicamentos sejam avaliados em conjunto com as possíveis consequências de doenças não tratadas, evitando decisões baseadas apenas na exposição aos remédios.



