15.1 C
São Paulo
terça-feira, outubro 20, 2026

Efeito BYD: por que o Brasil se tornou ‘laboratório’ para empresas chinesas

Leia mais


Trabalhador ajusta componente de veículo elétrico da BYD na nova fábrica de Camaçari (BA). (Foto: Instagram)

A inauguração da fábrica da BYD em Camaçari, na região metropolitana de Salvador, simboliza o papel crescente do Brasil como polo de montadoras chinesas de veículos elétricos e destaca o País como destino prioritário de investimentos de Pequim. Erguida no mesmo terreno onde antes funcionava uma unidade da Ford, a planta reforça tanto a ascensão da China no mercado global de elétricos quanto a aproximação econômica e cultural entre os dois países.

No início de 2026, circulou um boato de que estariam sendo construídos alojamentos para 10 mil chineses ligados à montadora, mas tratava-se de uma fake news. A BYD, que superou a Tesla em 2025, inaugurou em outubro de 2025 sua maior unidade na América Latina. Em menos de um ano, mais de 100 mil veículos montados com kits importados foram distribuídos por todo o País, colocando a marca entre as mais vendidas.

A produção totalmente local está prevista apenas para o fim de 2026, mas a fábrica já emprega 7.618 trabalhadores diretos. Desse total, 6% são estrangeiros, em sua maioria chineses, segundo dados da empresa. Além disso, operários da China participam das obras de expansão, incluindo a construção de novos pavilhões industriais e blocos de alojamento. Desde 2024, a Polícia Federal registra 2.310 vistos de residência emitidos em Camaçari e Lauro de Freitas, a maior parte temporária.

Em Camaçari, cidade de cerca de 300 mil habitantes, não há um bairro predominantemente chinês. Os funcionários vivem em hotéis ou em condomínios alugados, muitos por intermédio da corretora Cássia Cotia, que ajuda os recém-chegados com tarefas diárias. No refeitório da fábrica, pratos chineses convivem com opções brasileiras, e a cultura vai aparecendo em placas com ideogramas em restaurantes de yakisoba e em reuniões em mandarim.

“Eles amam essa liberdade da Bahia, o calor humano”, diz Cássia, que se comunica com eles por meio do WeChat e recebe presentes e jantares em retribuição. A convivência, que a levou a planejar uma viagem à China em 2027, contrasta com a antiga unidade da Ford, encerrada em 2021, deixando espaço livre para a ofensiva chinesa.

Para especialistas como Rogélio Golfarb, ex-executivo da Ford no Brasil e ex-presidente da Anfavea, a China antecipou-se à virada elétrica global ao investir em educação, pesquisa e desenvolvimento. O país adotou um modelo de capitalismo de Estado que favoreceu montadoras como a BYD, estimulando inovação própria, produção em larga escala e verticalização — do insumo à montagem final.

O Brasil, rico em energias renováveis e matérias-primas para baterias, além de ter um mercado consumidor amplo, tornou-se terreno natural para essa expansão. Além da BYD, outras chinesas desembarcaram aqui, como a GWM, que comprou a fábrica da Mercedes no Rio Grande do Sul, e a Geely, em parceria com a Renault no Paraná.

A chegada dessas montadoras reforçou a concorrência e atraiu investimentos, contribuindo para uma queda média de 3,5% no preço de veículos leves novos até junho de 2026, segundo a Bright Consulting. Mais do que baratear o automóvel, a presença chinesa tem modificado a percepção dos brasileiros sobre produtos antes vistos como cópias de baixa qualidade, ao trazer tecnologias de ponta e opções de maior valor agregado.

- Advertisement -spot_img
- Advertisement -spot_img

Últimas notícias