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terça-feira, outubro 20, 2026

“Tudo é política”: pesquisadora avalia influência dos influenciadores na campanha eleitoral brasileira

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A pesquisadora franco-brasileira Nina Rolin em estúdio da RFI, analisando as novas estratégias de comunicação política nas redes sociais. (Foto: Instagram)

A comunicação política nas redes sociais passou por mudanças profundas desde a disputa presidencial de 2022 no Brasil. Para a pesquisadora franco-brasileira Nina Rolin, fundadora do canal Leaks Media e doutoranda em semiologia na Universidade Paris-Cité, o bolsonarismo realizou um reposicionamento para ampliar seu espectro eleitoral. Seu trabalho compara as narrativas de criadores de conteúdo na França e no Brasil, mapeando as estratégias de alcance e engajamento que moldaram o debate público.

Um dos vetores dessa transformação foi o abandono de símbolos antes exclusivos do bolsonarismo, como o patriotismo exacerbado e a bandeira nacional. “Em 2022, o patriotismo e a bandeira brasileira eram marcas muito associadas a Jair Bolsonaro. Hoje, esses símbolos já não pertencem a um único campo político”, observa Nina. Segundo ela, há uma tática deliberada de suavizar a imagem da extrema direita, apresentando-se como uma “direita liberal” para reduzir rejeições e atrair novos eleitores.

Paralelamente, a extrema direita passou a dialogar com elementos da cultura popular que, até então, eram criticados pelos conservadores. “Vi deputados usando trechos de funk que Bolsonaro condenava”, destaca a pesquisadora. Essa abertura procura conquistar parcelas do eleitorado popular, inclusive simpatizantes históricos do PT, e reforça a tese de que a política se insere em todas as esferas da vida cotidiana.

No centro dessa dinâmica estão os influenciadores digitais, que se tornaram protagonistas no cenário eleitoral ao ocupar diariamente o mesmo espaço de informação e entretenimento de milhões de brasileiros. “Eles não são 100% responsáveis pela campanha, mas desempenham papel fundamental ao mobilizar o público e explicar os acontecimentos”, afirma Nina. Alguns criadores movimentam audiências de até 30 milhões de seguidores e passaram a revelar sem rodeios suas preferências políticas no segundo turno: “Eu estou do lado do Lula, eu voto 13; eu sou do lado do Flávio Bolsonaro, mesmo que perca seguidores”.

A pesquisadora identifica ainda paralelos entre as estratégias de direita no Brasil e na França, sobretudo na adoção de formatos mais leves e humorísticos. “Jordan Bardella e Marine Le Pen, por exemplo, fazem vídeos de tom descontraído. Eles usam o ‘privilégio da beleza’ e uma linguagem mais direta, como se tudo estivesse bem”, explica. Esse estilo visa humanizar figuras políticas e amenizar críticas.

Por fim, Nina enfatiza o protagonismo dos memes e das imagens virais, citando o exemplo do “Gostoso da Paulista”, cujo alcance ultrapassou fronteiras. “Ingleses, franceses, até indianos passaram a comentar não só sobre o corpo dele, mas sobre o que aquilo representa politicamente.” Para a pesquisadora, a lição a extrair é clara: influenciadores, artistas e marcas não podem mais ignorar a política em suas produções. “Hoje em dia, fazer vídeo na internet sem citar política é simplesmente impossível. Tudo é política.”

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