Duas doses da vacina Qdenga reduziram em 87,9% o risco de hospitalização por dengue entre adolescentes de 10 a 14 anos no estado de São Paulo, segundo estudo publicado na revista científica The Lancet. A pesquisa analisou dados de 2024 e 2025 para avaliar a efetividade da vacina da farmacêutica Takeda em condições reais de circulação da doença.
Os pesquisadores analisaram 166.390 testes de dengue realizados em adolescentes dessa faixa etária. Entre eles, 65.365 tiveram resultado positivo e 101.025, negativo. A Qdenga, aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2023, é administrada em duas doses com intervalo de três meses.
Os resultados mostraram um aumento da proteção após a conclusão do esquema. Contra casos sintomáticos, a efetividade estimada foi de 59,2% depois da primeira dose e chegou a 73,1% após a segunda. Para hospitalizações, os índices passaram de 74,6% com uma aplicação para 87,9% com as duas.
++ Após amputação, homem ganha braço de crochê do primo
“As duas doses de vacina realmente garante uma proteção maior, principalmente para hospitalização. Então, é um ganho de 13% em relação à hospitalização no que diz respeito à proteção”, diz Julio Croda, infectologista, pesquisador da Fiocruz e um dos autores da pesquisa, em entrevista à CRESCER.
A proteção permaneceu durante o período de acompanhamento, de aproximadamente um ano, mesmo diante de mudanças nos sorotipos do vírus em circulação. Em 2024, DENV-1 e DENV-2 predominavam no estado de São Paulo. Em 2025, houve aumento da presença do DENV-3, que passou a representar entre 20% e 30%, enquanto o DENV-2 continuou predominante.
“Houve uma mudança do sorotipo, houve um aumento da frequência de sorotipo 3 que não existia em 2024 para 20 a 30% e mesmo com essa circulação maior de sorotipo 3 e predomínio de sorotipo 2, não houve uma queda expressiva da proteção. Então, assim, a gente tem dados de mais de 1 ano para a primeira dose, mostrando que a vacina continua protegendo”, diz Julio Croda.
Os resultados se referem especificamente à população e ao período analisados e não significam que uma pessoa vacinada esteja completamente protegida contra a dengue. Os pesquisadores pretendem continuar o acompanhamento por mais dois anos para observar o desempenho da vacina diante de possíveis novas mudanças na circulação dos sorotipos.
“A gente pretende seguir por mais dois anos, principalmente no cenário onde outros sorotipos possam se possam se tornar predominantes, temos uma expectativa para isso com o Super El Niño”, destaca Croda. “Nós não sabemos se será nessa sazonalidade ou na próxima sazonalidade. Por isso que há a ideia de acompanhar os próximos dois anos, para também entendermos se, no contexto do sorotipo 3 sendo o predominante, a efetividade da vacina vai permanecer”, acrescenta.
++ Mãe descobre que bebê nasceu com marca no mesmo lugar de cicatriz de cachorro que morreu
A faixa dos 10 aos 14 anos foi analisada porque correspondia à população elegível para receber a vacina pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) naquele momento. “A gente fez com essa população porque foi a população que era elegível para tomar vacina. A OMS deixa claro, na sua recomendação, que ela recomendou essa vacina para crianças de 6 a 16 anos”.
Segundo Croda, também existem dados clínicos envolvendo outras idades. “Os dados clínicos existem de 4 a 59 anos, e mais dados estão sendo gerados atualmente para acima de 60 anos. Principalmente os dados de segurança estão sendo gerados por um estudo da Takeda que está sendo feito no sudeste asiático”, explica.
Outra pesquisa realizada em Dourados, em parceria com a Takeda, acompanha pessoas de 4 a 59 anos para avaliar a efetividade da vacina em diferentes faixas etárias. Os resultados parciais apontam índices semelhantes entre os grupos, mas os pesquisadores ainda aguardam mais uma sazonalidade antes da publicação dos dados finais.
“A efetividade continua preservada em valores bastante similares para as diferentes faixas etárias de 4 a 59 anos. A gente está esperando também mais uma sazonalidade para ter poder estatístico para publicar os resultados finais de Dourados”.
++ Pílula que promete prolongar vida de cães é testada em 1.300 animais nos EUA
Diante dos resultados encontrados em São Paulo, Croda reforça a importância da segunda aplicação e aponta estratégias para ampliar a cobertura. “A gente mostrou que tem um ganho de 13% no que diz respeito à proteção em relação à hospitalização, ou seja, protege mais, principalmente para doença grave”, explica.
Entre as medidas mencionadas estão a vacinação nas escolas e o contato direto com as famílias por WhatsApp, e-mail ou outras mensagens. “Acho que tem que discutir estratégias de acesso, né? Uma delas é a vacinação na escola”, afirma. “E também através de comunicação mais direta com as famílias, informar diretamente que aquela criança precisa receber, aquele adolescente precisa receber a segunda dose”.



