
Avatares femininos gerados por IA são usados em perfis políticos no Instagram e TikTok (Foto: Instagram)
Uma investigação da BBC News Brasil identificou dezenas de perfis no Instagram e no TikTok que exploram imagens hiper-realistas de mulheres geradas por inteligência artificial para simular apoio aos candidatos à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Essas contas acumulam quase 7 milhões de seguidores e centenas de milhares de curtidas ao combinar engajamento político com estereótipos de beleza feminina.
As páginas reproduzem cenas de manifestações, inserindo as personagens de IA ao lado de figuras como Flávio Bolsonaro em locais emblemáticos, como o Farol da Barra, em Salvador, em vídeos que viralizaram. Em outras postagens, elas anunciam transmissões ao vivo ou vídeos de teor sexual, criando a impressão de influenciadoras engajadas na campanha eleitoral.
Muitas dessas contas não deixam claro que as publicações são fruto de inteligência artificial, em desacordo com as diretrizes das plataformas. Nos perfis estudados, a soma de interações supera 500 mil em curtidas e mais de 18 mil comentários, evidenciando o poder de atração desse tipo de conteúdo, mesmo sem qualquer vínculo com pessoas reais.
Para monetizar o público conquistado, os administradores encaminham seguidores a serviços de conteúdo adulto, como OnlyFans, ou canais no Telegram que cobram por fotos e vídeos. Em alguns casos, há cobrança em contas no exterior ou via empresas intermediárias, o que dificulta o rastreamento e a contenção dessa prática.
Em resposta, o Instagram informou possuir regras contra nudez e atividade sexual de adultos, e afirmou remover conteúdos que violem suas políticas. O TikTok também ressaltou ter eliminado postagens que infringem suas Diretrizes da Comunidade e apresentou orientações específicas sobre mídia gerada por IA e integridade eleitoral.
Raquel Saraiva, do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), avalia que há uma estratégia comercial por trás da operação: “Quem produz esse conteúdo faz o pacote completo”, diz ela, ao explicar como padrões de beleza são usados para atrair um público que, em seguida, é conduzido a produtos pagos. Ela relaciona a iniciativa à exploração da imagem feminina e à misoginia.
A tática de usar avatares de IA em campanhas não é exclusiva do Brasil. Nos Estados Unidos, perfis de uma enfermeira pró-Trump vendiam fotos eróticas com símbolos políticos. Na Alemanha, o CORRECTIV.Faktencheck mapeou quase 200 contas que promoviam a extrema direita e redirecionavam para plataformas pagas. Especialistas alertam que essas práticas podem confundir eleitores e comprometer a integridade do processo eleitoral.



